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- Paulo Palladini
Falar da violência
Como um pedaço de bolo de nozes. É uma daquelas noites frias.
A calma do meu escritório contrasta com a inquietação
que me toma o interior. Que falar da violência? Que palavras, que
idéias são apropriadas a este momento? Todos parecem ter
fórmulas contra a violência, mas o fato é que a perplexidade
tornou-se geral. Ninguém sabe o que fazer. E em situação
assim, a que o psiquiatra e filósofo alemão Karl Jaspers
denominou situação-limite, que o ser humano pode revelar,
arrancando de seu âmago, a forca criadora. Quando todo o conhecimento
se esgota, quando todos os meios se mostram inadequados, surge aquela
última liberdade, que é a única resposta possível.
Só posso acreditar na criatividade para fazer frente às
manifestações do lado mais perverso da condição
humana. Já não cabem mais respostas prontas, lemas desgastados,
chavões, frases feitas. Não basta evocar os direitos de
cidadania e as liberdades democráticas. Tudo isso é insuficiente.
A austeridade à moda antiga também já não
funciona mais. Estamos desorganizados. E o crime organizado prospera especialmente
em sociedade que se desorganiza. Durkheim usava a palavra anomia para
caracterizar a ausência de regulamentação da vida
social em períodos de crise, quando faltam regras pactuadas e os
cidadãos ficam ao sabor do individualismo e da confusão.
Mais ou menos uma situação do tipo: cada um por si ou salve-se
quem puder. Somos pacíficos demais para suportar tanta violência.
Ou não haveria tanta violência real? Ou tudo não passaria
de pura ilusão, maquiavelismo midiático para manter a classe
média assustada? O binômio segurança/insegurança
precisa entrar na pauta pra valer; se-ri-a-men-te. De nada adianta, afirmam-nos,
blindagem, colete, alarme ou cerca eletrificada. O banditismo esta aí
para vencer em todas as camadas sociais, em todas as classes operárias
e burguesas. Acintoso desafio às autoridades, justo aquelas autoridades
que foram investidas do poder pelo voto popular. Nada mais perverso para
a afirmação democrática do que o assassinato político,
que é a negação do diálogo, do livre fluir
das idéias. Há os que querem fazer calar e os que se aproveitam
disso. O momento é delicado e recomenda cuidado, principalmente
quanto a falsas soluções. Não penso que haja uma
solução fácil. Mas criatividade e bom senso só
podem fazer bem. É preciso entender que a violência, como
a AIDS e as drogas, não acontece só com o vizinho. Ninguém
está vacinado contra nenhuma delas. Por isso não é
um problema só do governo ou da polícia. O governo precisa
dar respostas rápidas e inspirar a confiança dos cidadãos;
estes precisam cooperar e indicar que não mais toleram tais níveis
de violência na sociedade. Paz não pode ser apenas uma bela
palavra num cartaz. Precisa impregnar o cotidiano do cidadão comum
nas relações de todos com todos.
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Paulo Palladini
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