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Segunda-feira, 18 de julho. O frio já passara. Noite agradável. Dirigimo-nos, Ana e eu, ao Teatro Municipal de Mococa para a apresentação de Marcelo Jeneci - Feito pra acabar - um evento da SUM – Semana Universitária Mocoquense, promovida pela UMU – União Mocoquense dos Universitários, junto com SESC São Carlos e Circus Produções Culturais. A entidade mocoquense foi fundada em 1968, primeiro presidente foi Toni Naufel, quando estudante de medicina, hoje prefeito da cidade pela segunda vez. A UMU surgiu em pleno regime militar, no mítico ano de 1968, às vésperas do fechamento político mais terrível que este País já viu. Os anos da ditadura incitavam tomadas de posição radicais. E os mocoquenses que cursavam a universidade na época traziam para cá um pouco do debate que se fazia nos campi. E também a discussão das questões sociais e culturais. Não se tratava de fazer a revolução em Mococa, uma revolução que não se faria em Brasil nenhum, dado que nos inclinamos quase sempre às soluções conciliadoras. Mas o líder comunista Luiz Carlos Prestes, meio combalido, passou por aqui e pudemos ouvir sua voz ecoando nas paredes do Teatro Municipal. Como também por aqui passou o compositor Tom Zé, reunido numa tarde com doze estudantes numa sala de aulas e discorrendo por horas sobre uma teoria dos neurônios; e de como a tecnologia possibilita e limita a criação artística. Deu o exemplo de uma composição sua que subia rapidamente de volume, como uma cachoeira às avessas, mas as máquinas de gravação não acompanhavam. Mais tarde fomos assisti-lo no Cine Mococa, só, com seu violão: São São Paulo meu amor/ São São Paulo minha dor. E gargalhava ao contar como enganara os jurados num festival de musica popular (os festivais eram populares na época), compondo uma música só de pedaços de outras bem conhecidas, um plágio total, que ninguém descobriu. Durante a SUM podíamos passar a tarde conversando com Tom Zé. A mesma UMU que agora trouxe Marcelo Jeneci, que nos lembrou: Chico Buarque tocou e cantou aqui há quarenta anos atrás. Eu não me lembro se foi exatamente há quarenta anos. Mas eu estava lá. E ouvi Chico cantar Cálice em plena AEM – Associação Esportiva Mocoquense. Esta composição dele com Gilberto Gil era uma das mais censuradas da época. Simplesmente não podia ser apresentada publicamente; para os militares deveria ser banida. Ninguém podia ouvir: Pai! Afasta de mim este cálice/ de vinho tinto de sangue. Era demais para o regime. E Chico cantou, e fez provocações ao censor, que o acompanhava por onde ia, sempre escondido na plateia. Foi uma apresentação histórica, tanto pela dimensão política do evento, como pela dimensão que Chico Buarque atingiria na musica popular brasileira. E eram estudantes mocoquenses que patrocinavam tais encontros, bebendo dessas fontes nas universidades e dividindo com os locais durante o mês de julho de cada ano. Era uma amostra do que viam pelo mundo. Carregávamos todos o sentimento do mundo. Leia
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