Voltar - Paulo Palladini

Eu digo não!

Meu filho Gustavo, certa vez, chamou-me a atenção para uma notícia de jornal. Ela informava que o consumo de Coca-Cola aumentara em 3,5% naquele ano. Pensei: só algumas pessoas que eu conheço devem ter contribuído com pelo menos 1%. Nada a estranhar. “Todo o mundo” toma Coca-Cola. De fato, depois de ver anúncios do refrigerante em Moscou e em Pequim, quase acabei concordando com a tese do fim da história e das ideologias, tão em moda há alguns anos atrás. Mas, passado o impacto inicial, mais recomposto, concluí, como muitos, ser o acontecido apenas a preponderância de uma determinada ideologia sobre outra e que a história continua. Este refrigerante com gosto não se sabe de que constitui, no seu aspecto simbólico, a expressão máxima do capitalismo. Pois, sendo um produto absolutamente desnecessário, foi absolutamente incorporado ao nosso estilo de vida. Aliás, uma das mágicas do capitalismo é esta: transformar produtos inúteis em necessidades, quando não em vícios incorrigíveis. Talvez a natureza social do ser humano deixe-o desprovido da sua capacidade de escolha diante de algo assim tão imperativo como a frase “beba Coca-Cola”. Clara, sintética, objetiva. Precisamos de clareza, sínteses e objetividade. Por isso não resistimos ao apelo direto e sem rodeios. Mas, se as pessoas não conseguem dizer não é porque perderam a sua liberdade.
Aprender a dizer não é a primeira etapa no processo de emancipação. Quando adolescentes, os filhos começam a recusar os programas sem graça dos pais, suas piadas, as músicas que ouvem, seu jeito de fazer as coisas. Ao dizerem não, inclusive ao belo projeto de vida, que papai e mamãe construiram para eles, os filhos dão início ao processo de consolidação de suas próprias personalidades. Nos clientes em psicoterapia o começo da mudança vem em forma de não. Não às traições e violências de um marido estúpido, não às manipulações de uma mulher inconseqüente, não ao trabalho desumanizante, às mentiras dos políticos, às negociatas, etc, etc, etc. Todas as revoluções começam com um grande NÃO. Mas a simples recusa, a derrubada das velhas estruturas não é suficiente. Preciso é reelaborar o velho para deixar nascer o novo, incorporando os elementos importantes do passado. Assim fazem os filhos depois da tormenta adolescente: revitalizam muitos dos valores paternos. Assim fazem as pessoas inteligentes, os grupos sociais relevantes, as nações soberanas. Mas, tudo isso por causa de uma simples Coca-Cola? Pois.

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Paulo Palladini