Voltar - Paulo Palladini

Escrevo, logo penso

O dilema costumeiro diante de uma folha de papel em branco. É o mesmo dilema do pintor diante da tela ou do escultor diante de um bloco de granito. Ou do arquiteto e sua prancheta. Escrever não é fácil. O processo criativo é trabalhoso por si só. Eu, que escrevo sobre acontecimentos, meus e do mundo, ainda sinto algum conforto. Mas tem gente que escreve para exorcizar seus demônios. Há quem escreve para se reconciliar com o passado, reconhecer alguma falta. E há também quem o faz para se defender, acusar alguém, denunciar, ou enaltecer e louvar. E tem os porta-vozes, os médiuns, que só dão forma aos personagens que trazem dentro de, dão volume às vozes do seu interior. Conheci pelo menos um escritor assim. Enfim tem muitos motivos para alguém sentar-se diante de uma folha de papel em branco e registrar seu pensamento. Pois a expressão gráfica passa antes pelo pensamento, comunica algo que, imediatamente antes, é idéia. Penso, logo escrevo. Ou, melhor: escrevo, logo penso. Existe uma escrita quase automática, que vem direto das entranhas, mas essa não é a mais comum. Entre uma emoção e a mão que tecla há um lapso de tempo. Mesmo quando a escrita flui de modo mais ou menos livre uma corrente de imagens subjetivas é o guia. O pensamento é a imagem simplificada das coisas, é imagem simplificada do mundo, do universo. Mesmo o mais abstrato deles ainda é imagem, mais distanciada do fotograma, é verdade, menos óbvia. Agora, todo pensamento vem carregado de significado. Não tem pensamento neutro, sem pelo menos um afeto que nele se encerra. Toda idéia traz junto suas ressonâncias afetivas. Por isso a linguagem é simbólica. Dois paus cruzados formam uma cruz. E uma cruz, em nosso universo simbólico, nunca é neutra, ao contrário, é carregada de significado. Não sabemos ao certo, mas milhares de pessoas foram crucificadas ao longo da história. Mas só a experiência de Jesus transformou a cruz na CRUZ. Outra cruz, a suástica, foi apropriada pelos nazistas, e só a partir desta experiência ela se tornou no que é para nós hoje. A experiência de sofrimento de milhões de pessoas cunhou o significado dessa imagem. É a experiência afetiva, portanto, que confere sentido a determinada imagem-pensamento. Quando falamos, escrevemos, fotografamos, revelamos imagens. Mas nenhuma delas é neutra, desprovida de sentido. Perder o sentido é perder a vida. Uma pessoa deprimida sente que, para ela, tudo perdeu o sentido. Uma sensação de inutilidade invade todos os meandros do seu ser. É uma quase morte. Por isso muitos deprimidos alimentam a idéia da morte; temem e, ao mesmo tempo, querem morrer. Se os sentidos de sua existência não forem resgatados, reapropriados por ela, nada há a fazer. Expressar e comunicar é dar forma concreta ao pensamento. Um livro é apenas um livro. Mas é um mundo. Estamos abdicando da nossa capacidade de conferir sentido ao mundo. Estamos funcionando somente no princípio do prazer. E prazer é só momento; precisa ser repetido e repetido e repetido. E se esgota. O sentido, pelo contrário, justifica uma vida.

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Paulo Palladini