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Escrevo, logo penso O
dilema costumeiro diante de uma folha de papel em branco. É o mesmo
dilema do pintor diante da tela ou do escultor diante de um bloco de granito.
Ou do arquiteto e sua prancheta. Escrever não é fácil.
O processo criativo é trabalhoso por si só. Eu, que escrevo
sobre acontecimentos, meus e do mundo, ainda sinto algum conforto. Mas
tem gente que escreve para exorcizar seus demônios. Há quem
escreve para se reconciliar com o passado, reconhecer alguma falta. E
há também quem o faz para se defender, acusar alguém,
denunciar, ou enaltecer e louvar. E tem os porta-vozes, os médiuns,
que só dão forma aos personagens que trazem dentro de, dão
volume às vozes do seu interior. Conheci pelo menos um escritor
assim. Enfim tem muitos motivos para alguém sentar-se diante de
uma folha de papel em branco e registrar seu pensamento. Pois a expressão
gráfica passa antes pelo pensamento, comunica algo que, imediatamente
antes, é idéia. Penso, logo escrevo. Ou, melhor: escrevo,
logo penso. Existe uma escrita quase automática, que vem direto
das entranhas, mas essa não é a mais comum. Entre uma emoção
e a mão que tecla há um lapso de tempo. Mesmo quando a escrita
flui de modo mais ou menos livre uma corrente de imagens subjetivas é
o guia. O pensamento é a imagem simplificada das coisas, é
imagem simplificada do mundo, do universo. Mesmo o mais abstrato deles
ainda é imagem, mais distanciada do fotograma, é verdade,
menos óbvia. Agora, todo pensamento vem carregado de significado.
Não tem pensamento neutro, sem pelo menos um afeto que nele se
encerra. Toda idéia traz junto suas ressonâncias afetivas.
Por isso a linguagem é simbólica. Dois paus cruzados formam
uma cruz. E uma cruz, em nosso universo simbólico, nunca é
neutra, ao contrário, é carregada de significado. Não
sabemos ao certo, mas milhares de pessoas foram crucificadas ao longo
da história. Mas só a experiência de Jesus transformou
a cruz na CRUZ. Outra cruz, a suástica, foi apropriada pelos nazistas,
e só a partir desta experiência ela se tornou no que é
para nós hoje. A experiência de sofrimento de milhões
de pessoas cunhou o significado dessa imagem. É a experiência
afetiva, portanto, que confere sentido a determinada imagem-pensamento.
Quando falamos, escrevemos, fotografamos, revelamos imagens. Mas nenhuma
delas é neutra, desprovida de sentido. Perder o sentido é
perder a vida. Uma pessoa deprimida sente que, para ela, tudo perdeu o
sentido. Uma sensação de inutilidade invade todos os meandros
do seu ser. É uma quase morte. Por isso muitos deprimidos alimentam
a idéia da morte; temem e, ao mesmo tempo, querem morrer. Se os
sentidos de sua existência não forem resgatados, reapropriados
por ela, nada há a fazer. Expressar e comunicar é dar forma
concreta ao pensamento. Um livro é apenas um livro. Mas é
um mundo. Estamos abdicando da nossa capacidade de conferir sentido ao
mundo. Estamos funcionando somente no princípio do prazer. E prazer
é só momento; precisa ser repetido e repetido e repetido.
E se esgota. O sentido, pelo contrário, justifica uma vida. Leia
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