Voltar - Paulo Palladini


A entrevista de Fernando Henrique: não beijo sereia


A questão das drogas é uma questão social. Como tal desperta posições extremadas e, em muitas das vezes, mal fundamentadas. Por essas e outras, abordar o assunto é difícil. Quem trabalha com usuários de drogas, em geral, já tem uma posição firmada sobre o assunto. Eu coordeno a área de saúde mental de Mococa, em ação conjunta da Prefeitura Municipal com as Obras Sociais da Paróquia Santa Luzia. Parte de nossas energias é dedicada à questão das drogas, a partir do Caps-ad (Centro de Atenção Psicossocial). Acolhemos ali usuários das mais diversas drogas. Ele funciona como clínica-dia das 7h30 às 17h30, de segunda a sexta-feira. Recebem cuidados ali pessoas que abusam ou se tornaram dependentes, desde o tabaco até o crack (o oxi está a caminho). O leitor pode estranhar: tabaco? Sim, o tabaco também é uma droga e por isso mantemos um programa especial para quem quer parar de fumar. Temos ali uma equipe experiente, que lida no dia-a-dia com os problemas decorrentes das drogas. Entre os quais as doenças do fígado e as sexualmente transmissíveis. Orientamos famílias, respondemos a questões trabalhistas e legais, ajudamos os dependentes a prevenir recaídas e reduzir danos, ensaiamos ações de prevenção. Apoiamos pessoas bastante comprometidas e doentes graves. Estamos no olho do furacão. Por isso li com o maior interesse a entrevista do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso ao jornal Folha de São Paulo em 29 de maio. Ele integra, junto com outras personalidades, uma comissão internacional que estuda, discute e propõe revisões nas políticas sobre drogas. Para ele a repressão pura e simples, a guerra às drogas fracassou. É preciso construir um novo enfrentamento do problema. Não nos esqueçamos que Fernando Henrique é sociólogo de formação e tem uma visão muito clara das questões sociais. Na entrevista ele afirmou: “Eu sou a favor da descriminalização de todas as drogas”. Com isso ele quer dizer que o consumo de qualquer substância deixaria de ser crime. Não seria mais problema da polícia, da Justiça, do sistema penitenciário. Não significa legalizar. A produção e a comercialização das drogas continuariam proibidas, o tráfico continuaria sendo combatido. Mas quem fumar maconha ou mesmo crack não poderia mais ser preso. Para divulgar seus pontos de vista Fernando Henrique tornou-se o protagonista de um documentário - Quebrando o Tabu - dirigido por Fernando Andrade, que está chegando aos cinemas. Ele sabe que despertará reações e temores, num terreno sempre incerto. Não espera unanimidade. Mas procurou fundamentar suas opiniões com experiências e mudanças legais de outros países. Acha que o modelo que mais se aproximaria do nosso é o de Portugal, onde todas as drogas foram descriminalizadas, e o acesso a tratamentos fortemente ampliado. Para diminuir o consumo ele propõe que a sociedade deve motivar as pessoas, e não prendê-las. Estimular hábitos de vida saudáveis e desmotivar o uso de substâncias. Mais ou menos como é feito em relação ao tabaco. E tem mais. Outra posição polêmica sua: sobre a produção de drogas. Descriminalizado o uso, parte da produção poderia ser liberada. Por exemplo: plantação caseira ou em pequena escala de maconha, sob controle. O deputado federal Paulo Teixeira defende essa ideia no Congresso Nacional. É pano pra muita manga. Quando Fernando Henrique disse, na entrevista, ter estado, na Holanda, em locais que vendem maconha livremente, a entrevistadora perguntou se ele havia experimentado. Ao que respondeu: “Não, não. Comigo não tem jeito. Eu não beijo sereia”.

Leia pc.palladini.zip.net
Paulo Palladini