Voltar - Paulo Palladini

Vivem querendo nos enganar

Tudo virou mercado. Tudo, ou é mercadoria ou mercado. A própria palavra mercado virou uma palavra mágica. Resolve coisas, soluciona problemas milenares. Dentro dessa lógica, alguns espertalhões vivem de inventar a roda. A cada hora ou minuto ou milionésimo de segundo inventam uma roda. Os objetivos quase sempre permanecem obscuros. Ou são tão claros que nos ofuscam. Um exemplo foi dado pelo compositor Renato Teixeira, um dos responsáveis pela revitalização da música caipira, a partir de um público universitário. O autor de Romaria pensou que a expressão música sertaneja universitária se referia a ele e seus companheiros. Pois tocou em todo o circuito universitário, dividiu o palco com a vanguarda paulista e sertanejos do sertão que vinham dar nessas terras. Mas não! Sertanejo universitário é só mais um rótulo sem sentido algum, mais uma tentativa de dar credibilidade a um gênero musical, que foi completamente desvirtuado e desencaminhado para um pop brega com tintura country. Chapéu de caubói, cinto e botas. Na medida certa para o mercado. Mais doses de baladinha idiota e imbecilizante. Cadê nossos caipiras? “Quede os companheiros meus?”, faz a pergunta Elomar, direto do rio Gavião. Cadê a viola de Tião Carreiro? O espaço universitário foi tomado, primeiro pelo forró universitário, depois pelo sertanejo. Podemos esperar pelo samba, pelo choro e pela bossa universitária. O que é isso companheiro? Se houve um tempo em que no interior das universidades se gestavam as vanguardas, o universitário de hoje vai a reboque de tendencinhas de mercado. Caro Renato Teixeira, estamos envelhecendo e contra isso não há salvação. O único jeito é recolhermo-nos ao jardim com nossas violas, tambores e chocalhos. Um Geraldo Vandré só tem voz nos altos falantes do meu jardim. Nem o passado escapa desse revisionismo escroto. Aliás, não existe passado, só presente. Tudo conectado ao mesmo tempo agora. Li na Piauí 53 um artigo de Zadie Smith sobre o criador do Facebook, retratado no filme A Rede Social. Ela é professora e conviveu com Mark Zuckerberg, na época estudante em Harvard. Ela acha que programas como o Facebook estão aquém do potencial da geração a que ele se destina. Ela acha ainda que esses programas de relacionamento criam um mundo virtual formatado demais. E muito distante de um mundo que comporte valores, e não o nivelamento por baixo, a infantilização em massa. Os meios de comunicação, em geral, são imbecilizantes. Também acho isso. A maioria dos programas não é feita para pessoas inteligentes. E sabemos que o cérebro cresce conforme o usamos e encolhe se não o usamos. Esses meios digitais são bem mais que meios de comunicação, já que oferecem mundos virtuais quase prontos como esse do Facebook: “Zuckerberg parece ter tentado criar algo semelhante a uma noosfera, uma internet dominada por um pensamento único, um ambiente uniforme em que na verdade não importa quem a pessoa seja, contanto que continue a fazer suas escolhas (as quais em última análise, se traduzem em decisões de compra)”, escreveu Zadie Smith. Uma psique adolescente querendo impor sua visão caolha a todos. “E é esse tipo de rapaz que acha uma boa idéia reduzir a privacidade das pessoas”, continua Smith. Isso! Tudo resumido a consumo e mercado. Nós, os que ainda exibimos uma face humana de verdade, não precisamos de nada disso. Rejeito e resisto a isso. Prefiro uma casa no campo, pimenta colhida no pé, livros amigos e discos de vinil.

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Paulo Palladini