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São
duas histórias de resistência, de luta renhida e perseverante
em defesa da vida, da honra e da auto-estima. Dois brasileiros: ela, Thereza
Imanishi-Kari, bióloga, pesquisadora do famoso MIT ( Massachussetts
Institute of Technology) nos Estados Unidos; ele, Roberto da Silva, pedagogo,
ex-menino de rua e autor de uma tese sobre instituições
de menores. Tendo passado dos 5 aos 16 anos de sua vida em internatos,
incluindo uma das unidades da antiga FEBEM em São Paulo, Silva
tirou de sua própria trajetória a motivação
para estudar a fundo as entidades que acolhem crianças e adolescentes.
Sua tese de mestrado à Universidade de São Paulo, mostra
como funcionam essas instituições a partir do estudo de
370 ex-internos. Suas vidas têm muito em comum: famílias
desagregadas, com históricos de alcoolismo e doença mental,
analfabetismo, abandono, marginalização social e, finalmente,
criminalidade. Mais de um terço deles enveredou pelo caminho do
crime. O próprio Silva chegou a ser preso três vezes e passou
quatro anos na Casa de Detenção. Superou tudo para se tornar
professor e concluir que a norma, nestas instituições, é
a violência entre os internos. Aprender a manejar os "códigos
da violência" é aprender a sobreviver, processo que
o pesquisador chamou de "pedagogia do crime". Um ex-interno,
que já cumpriu 20 anos de cadeia, declarou: "creio no condicionamento,
na máquina que produz bandidos. Eu sei, posso falar porque era
um dos dentes da engrenagem". E, surpreendentemente, "o crime
é um dos grandes pilares da sociedade. Você faz idéia
de quantas pessoas vivem às custas dos bandidos?" A tese de
Silva faz uma crítica contundente dos cuidados públicos
aos menores e, ao mesmo tempo, mostra a trajetória de luta e perseverança
do próprio autor contra a adversidade e o preconceito. A mesma
adversidade e o mesmo preconceito, que enfrentou Thereza, uma pesquisadora
brilhante, mas que viu sua carreira quase ruir ao ser acusada de fraude
em pesquisas sobre o sistema imunológico. Nascida no Brasil, ela
foi alvo de investigações do Congresso dos Estados Unidos
e do Serviço Secreto. Tudo conspirava para fazer crer que num artigo,
publicado em 1986 na revista "Cell" juntamente com o Prêmio
Nobel de Medicina David Baltimore, usara dados falseados. Convicta de
sua inocência, enfrentou parlamentares preconceituosos, polícia
em busca de publicidade e imprensa tendenciosa, praticamente sozinha,
até provar estar certa. A briga durou 10 anos, devidamente temperada
com ciúmes e inveja, numa colossal fogueira das vaidades científica.
O final feliz do caso de Thereza, como o de Roberto da Silva, mostra que
há mecanismos de reparação no interior da sociedade,
que a fazem progredir e se aperfeiçoar, mas também, que
todas as paixões humanas, as mais baixas, fazem parte da realidade
com a qual temos de lidar. Freud era pessimista quanto ao futuro da humanidade
enquanto o psicólogo americano Carl Rogers acreditava no potencial
construtivo do homem. Para a filosofia positiva, contudo, tanto as tendências
destrutivas como as construtivas são parte integrante da alma humana. Leia
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