Voltar - Paulo Palladini

O dia da luta

Todo ano trabalhadores mais usuários de serviços de saúde mental celebram o dia 18 de maio. Desde 1987 a data é lembrada como um marco do Movimento da Luta Antimanicomial, que junto de outros movimentos sociais, estabeleceu as bases da reforma psiquiátrica brasileira. Reforma que muito avançou, mas, no momento, encontra-se sob forte questionamento. Voltaram a sair na imprensa matérias contrárias ao processo da reforma. De fato houve muitos avanços nos últimos, mas a necessidade de novos serviços ainda é grande. Pois o núcleo das medidas – a substituição de leitos psiquiátricos por ações comunitárias – vem sendo implementado em ritmo lento. Mais rapidamente se fecharam hospitais psiquiátricos que se criaram serviços alternativos às hospitalizações. Isso tem uma explicação. O fechamento depende mais dos governos centrais, seja federal ou estadual. Já a abertura dos serviços substitutivos depende de iniciativa dos municípios. Como são seis milhares em todo o Brasil, dá para imaginar as dificuldades. Na maioria dos lugares o espírito da reforma ainda nem chegou, e as pessoas ainda tem internalizada a idéia de que a melhor forma de lidar com os portadores de desordem mental é internando-as em algum hospício. A simples implantação de ações ambulatoriais é muito difícil em muitos municípios brasileiros: faltam profissionais habilitados; a maioria não consegue contratar psiquiatras ou enfermeiros espcializados. Tudo isso torna a tarefa de concretizar a reforma extremante árdua. Por outro lado há locais onde os avanços são inegáveis. Podemos dizer com toda a segurança que Mococa está entre eles. Com 70 mil habitantes a cidade conta com um Caps-ad (Centro de Atenção Psicossocial para álcool e outras drogas, inclusive tabaco), quatro residências terapêuticas, uma oficina terapêutica, leitos para desintoxicação de usuários de drogas e para transtornos mentais agudos na Santa Casa. Além disso, já estamos implantando o segundo Caps, esse para transtornos mentais, e três outros projetos estão em andamento: a ampliação das residências terapêuticas, uma enfermaria para adolescentes dependentes químicos graves (de abrangência regional como o Caps-ad) na Santa Casa, e a reorganização do ambulatório de saúde mental para crianças e adolescentes. Ótimas perspectivas. Iniciativa municipal com apoios federal e estadual, e convênio com as Obras Sociais Santa Luzia. Por tudo isso nossa participação nas Olimpíadas de Serviços de Saúde Mental, no último dia 15 em Casa Branca, foi uma festa. Nós, que nunca deixamos de comparecer desde a primeira edição, comparecemos com equipes do Caps-ad e da Oficina Terapêutica. Fazemos parte dessa história, que neste ano contou com a presença de 43 serviços, na maioria Caps, e quase 2 mil atletas. Em 2012 organizaremos as Olimpíadas em Mococa, como parte das comemorações dos 10 anos desse grande projeto de saúde mental, que estamos construindo aqui. Desde já todos estão convidados para as festas, que devem começar em 21 de janeiro – dia da abertura da primeira residência terapêutica em 2002 - e se encerrar em 18 de maio. Serão organizados encontros científicos, debates com a comunidade, apresentações e exposições pelos usuários, sessões de filmes, competições esportivas. Para lembrar que as questões levantadas pelo binômio saúde/doença mental são questões da sociedade como um todo. E que o acolhimento e a inclusão social, o respeito e o bom cuidado, são escolhas, decisões e atitudes, não um determinismo qualquer. .


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Paulo Palladini