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A construção do livro Lançar um livro é um acontecimento supremo na vida de uma pessoa. Comparável a outros acontecimentos supremos, aqueles mais significativos, os mais marcantes. É algo inusitado, vamos dizer raro, e talvez por isso tão valorizado. Publicar um livro é repartir com os outros o pão do espírito. Mas de uma perspectiva: de autor para leitor. Isso coloca quem escreve num outro patamar. Assim é como estou me sentindo. Alguma coisa mudou dentro de mim. Continuo o mesmo, e não sou mais o mesmo. Como vocês devem ter acompanhado, lancei em São Paulo, dia 17, meu livro Patogênese. Trata-se de uma obra técnica, cujo cerne é a psicopatologia examinada pelo ângulo da teoria do meu mestre Anibal Silveira. Ele foi dos mais ativos professores brasileiros, responsável pela formação de várias gerações de psiquiatras. Eu pertenço à última turma que ele orientou. Quando o conheci, ele já contava 76 anos. Morreria no ano seguinte, de modo que nossa convivência foi breve. O suficiente, porem, para provocar em mim, enorme impacto. Sua obra é imensa e abarca as mais variadas expressões do conhecimento do cérebro e da mente. O critério patogenético que desenvolveu permite estabelecer relações entre os planos encefálico e psíquico, elaborar diagnósticos precisos e fazer prognósticos no vasto campo da saúde mental. Das duas grandes vivências que o Juqueri me proporcionou, uma foi a aprendizagem da psiquiatria silveiriana. A outra foi a oportunidade histórica de implantar um modelo de moradia protegida para pacientes psiquiátricos, que foi incorporado à reforma psiquiátrica brasileira. O Professor Anibal Silveira era, então, diretor da Faculdade de Medicina de Jundiaí e titular de psiquiatria daquela faculdade. O campus avançado do departamento de psiquiatria era o Pavilhão-Escola no Hospital de Juqueri. Foi ali que aprendi psiquiatria pelo critério patogenético. Àquela época o Juqueri estava em plena decadência; seu modelo de macro-hospital psiquiátrico era um modelo esgotado. Eu experimentava duplamente a complexidade em que me metera: aprender psiquiatria, por um lado, ajudar a transformar aquela realidade, por outro. Acabei realizando ambas. Quando deixei o hospital em 1984, na condição de diretor, fui dirigir outro hospital público: o Hospital Psiquiátrico de Vila Mariana em São Paulo. Foi de lá que decidi voltar para Mococa, decisão compartilhada com Ana. Na bagagem uma caixa repleta de papéis, apostilas, artigos, folhas mimeografadas. Anotações de aulas, cadernos. Em 1989 resolvi homenagear o Professor no XIX Congresso Brasileiro de Neurologia, Psiquiatria e Higiene Mental. Escrevi um pequeno texto: Anibal Silveira, uma homenagem nos dez anos de sua morte. Nele incluí um roteiro do que eu imaginava seria um livro sobre ele. Embora produzisse muito, Silveira não deixou um livro que sintetizasse seu pensamento psiquiátrico. Em 1989 eu não pensava escrevê-lo. A idéia me ocorreu 8 anos depois, quando tropecei na tal caixa de papéis. Decidi fazê-lo nos cinco anos seguintes. Em 2004 apresentei o primeiro esboço num evento em homenagem aos 25 anos de morte do Professor Anibal, em Jundiaí. Um de seus antigos discípulos, José Gilberto Franco, leu o manuscrito. Cheguei à Editora Terceira Margem. Lúcia Coelho, minha professora de teoria da personalidade, e uma das mais destacadas seguidoras de Silveira, aceitou revisar meu texto e apresentá-lo. Lançá-lo foi o coroamento de tudo isso: amigos e colegas de trabalho, alunos da Sociedade Rorschach, marcaram presença. Além da presença meiga da Professora Marina, filha do grande mestre da psiquiatria brasileira. Leia
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