Voltar - Paulo Palladini


Consciência Negra

Por todo canto leio que o Dia da Consciência Negra é um grande feito. Entendo o que dizem. Mas, olho à minha volta, e não percebo nenhuma manifestação alusiva à data. É um feriado normal; trabalhei um pouco, descansei outro. Talvez em algum lugar, onde haja um movimento negro forte... É preciso, realmente, um dia da consciência negra? Ainda estamos falando em raça, quando a própria genética já pôs em cheque o conceito. Raça é um conceito cultural, um jeito de olhar. Ainda estamos divididos em raças, mesmo por isso mudanças são possíveis. Uma só humanidade. Como queria Martin Luther King. Como quis Nelson Mandela. Como quer Barack Obama: esta mais aquela. O mundo não é mais ou-ou, mas sim e-e. Depois da derrubada do muro. Aliás, todo mundo fala da queda do muro de Berlim como se ele tivesse caído sozinho. Ele foi derrubado, não que tivesse resolvido cair, como se tivesse vontade própria. Um muro não tem vontade própria. Quando o povo dividido resolveu se unir de novo pôs abaixo a barreira de concreto. Por mais robusta que era, ela não resistiu. Eu também dei minha picaretada no muro de Berlim. Houve um tempo em que vasos sanitários e bebedouros eram separados: white de um lado, colored de outro. Foi preciso vontade humana para por fim à segregação, que por seu turno não se instalou por vontade divina ou da natureza. Porque a discriminação e o preconceito não são naturais; não estão inscritos em nossa carga genética. O preconceito é ensinado e aprendido; portanto, pode ser igualmente desaprendido. E desaprendido depressa. Quando jovens judeus e palestinos puderam conviver num ambiente de liberdade, e, ver-se mutuamente como humanos, as idéias preconcebidas que tinham uns dos outros desapareceram. Darcy Ribeiro dizia que a grande contribuição dos brasileiros ao resto do mundo é nossa capacidade de misturar, miscigenar. Variar faz bem para os genes. A evolução só é possível porque os genes variam. A mutação é o motor da evolução. A humanidade precisa adquirir essa percepção. O mundo inteiro apoiou e colocou esperanças na eleição do presidente Obama. Ele tocou os corações. Ele não é um negro; é mestiço: pai negro, mãe branca. Mulato. Não é o tipo brasileiro? Europeu e africano, que vieram se encontrar na América. E, se procurarmos bem, vamos achar índio no meio dessa história. A mistura. Não mais a babel nem o arco-íris da aliança; uma só coisa. Um mundo só, uma humanidade. O ser humano é um. Abaixo a consciência negra, branca, amarela, vermelha. Viva a consciência una! Obama é o resultado de uma união. Sua idéia de conciliação – alguém observou - tem raiz na sua própria biologia; sua constituição corporal. Um quilombo era um gueto; não podia ser diferente. Mas um dia tombarão as cercas de todos os quilombos. Derrubadas por machados afiados. Pelas veredas, índios e brancos reunidos no grande sonho. O problema não é a falta de cotas nas universidades. É falta de família. É pai ausente. Igualdade de oportunidades. Adeus Lenin. Che Guevara é só um retrato na parede, estampa na camiseta. Como a Itabira de Drummond. Como Mococa para Alex Periscinoto. E dói. Desde ontem vale o escrito: toda exploração será castigada. Inclusive a dos bolivianos nos porões de São Paulo. E a dos chineses-comem-pouco-produzem-muito, oxigênio para o capitalismo. Por uma consciência. Só.

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Paulo Palladini