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Coisas O
presidente Lula, dando voltas no Oriente Médio, tenta convencer
uns e outros de que, mais que a beleza, a paz é que é fundamental.
E perfeitamente possível. Seu raciocínio é simples:
alguém deixa de fazer besteira aqui e alguém deixa de fazer
besteira ali. Juntos vamos todos construir o muro de dois lados; isto
é, que tenha o lado de cá: o nosso, e o lado de lá:
o deles. A minha terra e a sua terra. Abaixo o muro de um lado só.
O presidente dispõe-se a falar com todos os interlocutores. É
brasileiro. Ele negocia como numa assembléia de metalúrgicos.
Lula o metalúrgico. Uma perna na Palestina, outra em Israel, um
braço no Irã, o outro sabe-se onde. Convenhamos, a posição
é assaz incômoda. Enquanto isso uma menino palestino passa,
entre escombros, com a camisa amarela da seleção brasileira
de futebol. Chuta. A bola vai parar na África, próxima parada
desse trem desgovernado à espera do maquinista fiel. É na
África do Sul que todas as nações de chuteiras irão
se encontrar em breve. Simulação de guerra - sublimação
de guerra - futebol. Sabemos. A língua do futebol é a língua
da guerra: ataque, defesa, linha de frente, bandeira, hino, tiro, vitória,
derrota. Diz a lenda que o futebol surgiu num campo de batalha e a primeira
bola foi uma cabeça humana. Desde então o esporte predileto
dos homens é chutar cabeças. Literalmente ou não.
Olhos do mundo mirem o grande continente; lá onde o primeiro homem,
pela primeira vez, ergueu-se de sobre as quatro patas. Nesse instante
o lobo frontal do cérebro assumiu a regência; nasceu ali
a inteligência humana. Certo é que muitos da nossa espécie
continuaram sobre quatro patas mesmo. O que Mãe África tem
pra mostrar é cor, muita cor, dança e canto. Nossa música
é a música de lá. O bluesman de vinil BB King, que
roda agora na minha vitrola, que mais fez senão pegar as cantorias
que ouviu nos campos, amplificar, dedilhar a guitarra e dizer, em alto
e bom som: to know you is to love you. Durante a semana ele em pessoa
baixou por aqui, entre São Paulo e Rio, pra mostrar que ainda está
vivo, atento e forte. O canto do homem negro. Que coisa! Hesitei ao escrever
a palavra negro. Hoje dá medo falar e escrever certas palavras.
Certa tendência contemporânea vigia estas coisas e nos inculca
atitudes politicamente corretas Então: O canto do homem afro-descendente.
Não, ainda não está bom. Imiscuiu-se aí o
preconceito de gênero. Por que homem afro-descendente? E não,
a mulher? Não dá. É impossível escrever em
linguagem politicamente correta. Não consigo. Aliás, também
ignoro a nova ortografia e não sei mais onde colocar acento nem
vírgula. Cansei. Um psicólogo americano, possuído
dessa coisa correta-corretíssima, escreveu um livro, onde todas
as palavras são grafadas no masculino e no feminino. Do começo
ao fim. Tente ler. Não quero mais nada esterilizado. Chega dessa
obsessão pela limpeza, mania de ordem e mãos metidas em
gel desinfetante. Celebremos. Vamos esperar, da plataforma, a torcida
palestina na África do Sul. Claro instante. Leia
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