Voltar - Paulo Palladini

Coisas

O presidente Lula, dando voltas no Oriente Médio, tenta convencer uns e outros de que, mais que a beleza, a paz é que é fundamental. E perfeitamente possível. Seu raciocínio é simples: alguém deixa de fazer besteira aqui e alguém deixa de fazer besteira ali. Juntos vamos todos construir o muro de dois lados; isto é, que tenha o lado de cá: o nosso, e o lado de lá: o deles. A minha terra e a sua terra. Abaixo o muro de um lado só. O presidente dispõe-se a falar com todos os interlocutores. É brasileiro. Ele negocia como numa assembléia de metalúrgicos. Lula o metalúrgico. Uma perna na Palestina, outra em Israel, um braço no Irã, o outro sabe-se onde. Convenhamos, a posição é assaz incômoda. Enquanto isso uma menino palestino passa, entre escombros, com a camisa amarela da seleção brasileira de futebol. Chuta. A bola vai parar na África, próxima parada desse trem desgovernado à espera do maquinista fiel. É na África do Sul que todas as nações de chuteiras irão se encontrar em breve. Simulação de guerra - sublimação de guerra - futebol. Sabemos. A língua do futebol é a língua da guerra: ataque, defesa, linha de frente, bandeira, hino, tiro, vitória, derrota. Diz a lenda que o futebol surgiu num campo de batalha e a primeira bola foi uma cabeça humana. Desde então o esporte predileto dos homens é chutar cabeças. Literalmente ou não. Olhos do mundo mirem o grande continente; lá onde o primeiro homem, pela primeira vez, ergueu-se de sobre as quatro patas. Nesse instante o lobo frontal do cérebro assumiu a regência; nasceu ali a inteligência humana. Certo é que muitos da nossa espécie continuaram sobre quatro patas mesmo. O que Mãe África tem pra mostrar é cor, muita cor, dança e canto. Nossa música é a música de lá. O bluesman de vinil BB King, que roda agora na minha vitrola, que mais fez senão pegar as cantorias que ouviu nos campos, amplificar, dedilhar a guitarra e dizer, em alto e bom som: to know you is to love you. Durante a semana ele em pessoa baixou por aqui, entre São Paulo e Rio, pra mostrar que ainda está vivo, atento e forte. O canto do homem negro. Que coisa! Hesitei ao escrever a palavra negro. Hoje dá medo falar e escrever certas palavras. Certa tendência contemporânea vigia estas coisas e nos inculca atitudes politicamente corretas Então: O canto do homem afro-descendente. Não, ainda não está bom. Imiscuiu-se aí o preconceito de gênero. Por que homem afro-descendente? E não, a mulher? Não dá. É impossível escrever em linguagem politicamente correta. Não consigo. Aliás, também ignoro a nova ortografia e não sei mais onde colocar acento nem vírgula. Cansei. Um psicólogo americano, possuído dessa coisa correta-corretíssima, escreveu um livro, onde todas as palavras são grafadas no masculino e no feminino. Do começo ao fim. Tente ler. Não quero mais nada esterilizado. Chega dessa obsessão pela limpeza, mania de ordem e mãos metidas em gel desinfetante. Celebremos. Vamos esperar, da plataforma, a torcida palestina na África do Sul. Claro instante.

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Paulo Palladini