Voltar - Paulo Palladini


Celebridade rima com futilidade

O que é celebridade? Alguém célebre. Quem adquire fama independentemente de algum mérito. Ou justamente por ser desprovido de qualquer mérito. Sua existência depende dos meios de comunicação. Em princípio, qualquer indivíduo, em dado momento, pode se tornar uma celebridade. No futuro todos terão quinze minutos de fama. Já ouvimos esta frase, e o futuro já chegou. Ela contém algo desapontador para quem almeja ser célebre: dura só quinze minutos. Passa logo. Quando vejo alguma celebridade ou leio a respeito de alguma, em geral, tenho a sensação de uma imagem vazia, desprovida de conteúdo. Só imagem. Celebridade rima com futilidade, rima com mediocridade. Um ficou célebre porque comeu não sei quantas salsichas durante um programa de televisão. Outra porque foi à faculdade com o vestido curto demais. Uma garota, depois de brigar com o namorado, saiu à rua gritando que queria seu chip de volta. Virou celebridade na internet. Cômica. Mas tem celebridade sombria, profética e dona da verdade. Sem nenhum humor. Um jovem socialmente descolado preparou-se com esmero, gravou um vídeo com sua mensagem ao mundo e atirou em alunos de um colégio, onde estudara. Tem celebridade que cultua celebridade. Uma dessas comprou, por uma pequena fortuna, um par de botinas surradas, que pertencera a um velho ídolo da musica popular. Qualquer objeto vale; um lenço usado por uma diva menor do cinema mudo. Objetos tornam-se fetiches nesse universo. O critério maior a ser considerado é que as imagens sejam vistas por milhões. Isto só é possível na televisão ou na internet. É nesses meios que as celebridades nascem e morrem. Uma adolescente mostra seu dormitório vinte e quatro horas por dia. Um gato faz xixi no vaso sanitário da casa, filmado pelo celular do dono. Um cachorro que corre atrás do próprio rabo também vira celebridade. Alguém toca uma corneta idiota, outro canta um refrão mais idiota ainda. O que resta de tudo isso? Nada. As imagens vêm e vão, como as ondas do mar. Nada resta. São imagens vazias. Só entretenimento. Passatempo. Diversão. Mesmo as imagens terríveis de uma tragédia tornam-se entretenimento. Não distinguimos mais conteúdos em nossas sagradas telas planas. Tudo o que passa ali é pura diversão. Igual valor-valor nenhum. São fórmulas repetidas à exaustão, um processo sem fim de mesmice mediocrizante. Quanto mais desprovido de sentido, quanto mais vazio, quanto mais pasteurizado, quanto mais sem caráter, melhor parece! Nenhum caráter. Por fora bela viola. É só o que importa. Uma fina estampa. As aparências são tudo. Nada de crescer, suar, adotar princípios, vivenciar valores. Como dizíamos em 68: ser consciente. Isto dá trabalho e cansa. É patético esse mundo das aparências. É bonito, cheiroso, esticado como manequim de loja. Igualmente oco. Ao virar a esquina vi uma garota de vestido, salto alto, bolsa, batom, brincando com seu celular. Tinha três anos de idade!

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Paulo Palladini