Voltar - Paulo Palladini

Carnaval, alegria e vida

O carnaval está nas ruas. Festa eminentemente popular, teve seu brilho empanado nos últimos anos. A promessa para este ano é a de um carnaval do povo, a alegria de novo nas praças. Música, dança exaltação. Pois o carnaval é isso: exaltação dos sentidos e dos instintos. E sua essência é liberdade. Os limites do que se pode e do que não se pode fazer no carnaval são muito elásticos. Há quase que um consenso de que tudo pode. Uma festa dessa com regulamentação restritiva não tem sentido. A regra é a espontaneidade, o desregramento, e é aí que mora o perigo. A exaltação dos afetos provocada pelo clima, pela música, pela dança e pelas drogas desperta nas pessoas um verdadeiro estado maníaco, onde o tempo se acelera. Só importa o presente, sem passado nem futuro; só o imediato.Tudo se resume a um eterno agora. A euforia toma conta da consciência, cuja tarefa passa a ser a satisfação imediata dos desejos. Sem censura. A pessoa é capaz de coisas que jamais faria em condições normais. Se o desregramento é a regra não há qualquer tipo de controle. E não há mesmo. Muitos se protegem disso tudo retirando-se, fugindo do que consideram o caráter demoníaco da festa. Para esses o carnaval é uma espécie de trama diabólica. E se retiram para encontros espirituais, sublimando a energia instintiva, e canalizando-a para outro tipo de exaltação: a religiosa. Procuram enfatizar o caráter erótico e violento como fatores intrinsicamente negativos do carnaval, que estimularia a irresponsabilidade, as perversões, os riscos descabidos e, principalmente, o afastamento de Deus. Tudo bem. É um ponto de vista, e como tal deve ser respeitado. De fato os índices de intoxicação por drogas as mais diversas, violência, gravidez indesejada e contaminação por doenças sexuais aumentam bastante nesta época. Há muitos arrependidos nesta história e muitos outros que nem estão mais aqui para contar. Mas há, também, os que conseguem fazer do carnaval uma festa alegre, sem prejudicar ninguém nem perder-se na sua liberdade., e faça dele um instrumento de vida e alegria.
Devo dizer que nunca fui muito entusiasmado com o carnaval, nunca levei muito jeito para a coisa, mas reconheço sua força mobilizadora e sua alegria contagiante. Os dias de folia desde sempre foram diferentes, incomuns, sinônimo de uma liberdade dificilmente experimentada em outras épocas do ano. O reino da espontaneidade. Mas ainda será assim? Andando pela cidade durante esses dias de folga em vão procurei pelos sinais daquela grande e espontânea alegria, que tomava conta de todos. Ou de quase todos. O poder público fez o que pode: reorganizou o festival de músicas carnavalescas, preparou a avenida, ergueu arquibancadas, iluminou a noite. Louvo o trabalho daqueles foliões que lutam para por o bloco na rua. Mas alguma coisa está fora da ordem. Sinto que falta vida no carnaval. Onde o pobre vira rei e o fraco super-heroí? Onde crianças comuns, munidas de asas, elevam-se por sobre o mar revolto e incerto? Onde as pedras dos caminhos, pacientemente esculpidas em isopor, rolam ao menor toque do menor dos homens? Que tal um mundo onde as máscaras, acabada a festa, possam ser retiradas porque não estão pregadas na cara? Que tal uma festa em que a consequência maior seja a religação da alegria e não a gravidez indesejada, a contaminação pelo HIV, a overdose, o acidente fatal? Que tal a religação da vida?

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Paulo Palladini