Voltar - Paulo Palladini

Caramujo Orfeu

Meu amigo Getúlio Cardozo lançou seu sexto livro - O Carretel de Orfeu - no último dia 16 na Biblioteca Municipal. Com trilha sonora de Bob Dylan, ele autografou para o bom número de amigos e leitores, que lá compareceram,  sua versão poética de aspectos históricos da cidade de Mococa. “É a história de Mococa vista através das fissuras do tempo, cantada sem roteiro para vidas sem glória. É a exaltação da aldeia, a iluminação da margem obscura, a grafia da trama omitida pelo registro oficial”, leio  na contracapa. Embora milagreiro de Milagres, pequena localidade de Minas Gerais, já imortalizada na novela O Louco de Milagres, Mococa é sua terra por adoção. Aqui Getúlio revelou-se o escritor singular que é, de estilo próprio, capaz de se expressar em diversas linguagens: poesia, teatro, conto, novela, reportagem. E ainda pintura e, recentemente, escultura em madeira. Por tudo isso,  chamei-o, certa vez, o multimídia de Milagres.   Mas, de Milagres a Mococa e de Mococa para o Mundo, tudo foi difícil, como atesta em O aleijado: “O silêncio jogava dama com o preconceito, o destino tinha a palidez das ruas e à noite o medo descia do céu. Eu tinha quinze anos e meus braços estendidos não conseguiam alcançar a juventude, minhas pernas não se abriam para alcançar o mundo”.  Militou na política, sempre à esquerda, até hoje a esquerda. Militou na imprensa alternativa: junto com Jefferson Zanchi tirou da terra O Formigão. Tornou-se advogado. Filho único escreveu no poema Mudança: “Meu pai veio de Milagre sem trazer nada nas mãos. Em Mococa não havia onde colocar os balaios, o machado, a foice, o jirau e as letras eram poucas para ingressar no novo mundo. Sorte nossa que minha mãe era costureira. Eu tinha doze anos e trouxe para Mococa o inexistido para fazer minha poesia”. É esse o clima do livro, vale ler. Na porta da Biblioteca vi muitos jovens, lá dentro adolescentes conversando com o autor. Ali estavam pela literatura, pelo gosto da escrita. Alguns deles, além de leitores, já arriscam alguns escritos próprios. Por isso é importante autores mostrarem cara e livro. Fazerem lançamentos. Inspiram o desejo daqueles que estão começando. Nem tudo está perdido. Quando um livro é lançado o mundo se ilumina um pouco mais. Vemos mais claro, enxergamos mais longe.
Getúlio começou em 1996 com Rastro de Caramujo pela Zanchi Editora & Multimidia, prefácio de Elias José.  Ao fazer uma dedicatória para mim e Ana, acrescentou mais um poema ao volume: “independente de qualquer coisa, acertando ou errando, serão sempre um rastro luminoso, não no chão, mas acima, no chapéu, no céu, no ar, mais acima!” Era 6 de dezembro de 1996. Getúlio explicava que tomara consciência do valor de sua poesia quando premiado pela revista literária Escrita nos anos 70. Na ocasião revelou seu escritor preferido: Gogol. Pensou em escrever romance, após ter um conto seu – Aristóteles – aprovado por Elias José.  Getúlio sabe o valor de sua obra. Nós também sabemos.

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Paulo Palladini