Voltar - Paulo Palladini

Caminhando e cantando

Pensar o mundo é um exercício ao qual se dedicam muitos dos críticos da modernidade. Robert Kurz, pensador alemão, é um deles. Um dos alvos prediletos de sua verve corrosiva é o automóvel, que para ele, transforma-nos todos em paraplégicos mais ou menos voluntários. É como se não tivéssemos mais pernas para andar. Sedentários, deslocamo-nos a bordo de carros hermeticamente fechados, sentados
des-confortavelmente e manipulando painéis cheios de instrumentos. A ênfase contemporânea na atividade física, na redescoberta da caminhada como forma de manter a saúde e a qualidade de vida, viria do incômodo dessa paraplegia. Serve para lembrar-nos de que ainda temos pernas abaixo da cintura. Intimamente associada à idéia de modernidade está a noção de velocidade. Os futuristas, influência marcante sobre os modernos brasileiros, que completam mais de 80 anos de presença cultural inegável, tinham a velocidade em alta conta. Descobriram o mundo através do telégrafo, do rádio, do telefone, dos trens e do automóvel. Sua arte deveria expressar o ritmo frenético das coisas. E expressava. Desde então o mundo não parou mais de correr; tudo foi sendo acelerado e cada vez mais intensamente. Tomemos a tecnologia da informação como exemplo. Dos primeiros e revolucionários computadores até hoje, por quanto a velocidade de transmissão de dados se multiplicou? E não para de crescer. Alguns segundos de espera para a entrada de uma mensagem num microcomputador doméstico parece uma eternidade. Impacientamo-nos com tamanha lentidão! Precisamos de milhares de informações. Milhões. E cada vez mais rápido. Precisamos realmente? O nome da aceleração é mania; o nome da lentificação é depressão. Desafiar-nos a refletir sobre tais coisas tem sido o exercício praticado por alguns pensadores contemporâneos. Daí a importância da entrevista de outro filósofo alemão, Peter Sloterdijk concedida alguns anos atrás a Luiz Felipe Pondé, professor de filosofia na PUC e na FAAP em São Paulo. Respondendo ao brasileiro sobre esta “aceleração para o nada” Sloterdijk assinalou: “O objetivo é unicamente passarmos de um grau de aceleração para outro maior, não há nenhuma razão ou ganho humano real nisso. Não é à toa que a fórmula 1 se tornou um símbolo. Correr cada vez mais rápido para nada. Trata-se de uma velocidade vazia”. Verdade. Atribuimos valor máximo ao maior e ao mais veloz. Queremos cada vez mais e com maior voracidade. Contudo, nas questões humanas o ótimo quase nunca é o máximo, como já chamara a atenção o psicólogo Carl Rogers. “Quem lê tanta notícia?” indagava Caetano Veloso nos seus tempos de tropicália. Velocidade infinita e quantidade infinita de qualquer coisa conduzem a que? Se há um embotamento pela falta há também o embotamento pelo excesso. O resultado é sideração, aniquilamento das vontades, paralisia. Pronto: queremos tanta rapidez e quedamos estancados. Quem precisa?

Leia pc.palladini.zip.net
Paulo Palladini