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Caminhada É começo do outono. A terra ainda está úmida das chuvas de verão. O ar já está mais frio. Os raios de sol chegam quentes. É uma clara manhã de sábado. Apesar de uma dor inoportuna no joelho direito, resolvo caminhar. Tomo a estrada. A vegetação é abundante: arbustos variados, flores do lado esquerdo; um bosque de eucaliptos do lado direito. Não ouço nenhum ruído humano, exceto aquele provocado pelos meus próprios passos e pela minha respiração. Mas um chiado contínuo me acompanha. Distingo nele alguns pios de pássaros, sons de grilos e cigarras, sons de vento nas folhas, que balançam. Um pequeno grilo salta ante minha aproximação. Passos- respiração. Abaixo-me para apanhar pinhas: três pinhas. Formas fugazes aparecem e somem em meio às folhas dos eucaliptos. Seu perfume invade minhas narinas; inspiro mais forte, faço uma respiração profunda. Como é bom! Sinto-me em paz comigo mesmo e com o universo. Nada sobra, nada falta. Tudo está em harmonia. Não há dor no meu joelho. Meus órgãos estão em silêncio. Nada necessito, nada desejo. Tudo é conforme. O perfume dos eucaliptos, ora misturado com o dos pinheiros, penetra pelas narinas, irradia-se. Imagens passam pelo meu cérebro. Os pensamentos são imagens subjetivas: uma conversa por celular com meu filho interrompida por causa da bateria... fragmentos de uma reunião sobre adolescentes dias atrás... o sorriso de minha mulher Ana... sua voz... galeria de imagens de vários pacientes, que atendi na semana ... o som do saxofone. Uma
pequena pedra sob a sola do sapato faz tudo parar. e a atenção
vai para ela. Sensação de choque sobe pela perna esquerda.
Junto com um raio de sol por entre os troncos dos eucaliptos surge uma
mancha vermelha. Tão rápida vem tão rápida
vai. Paro diante de um tronco cortado; tem cerca de um metro de diâmetro.
Observo sua superfície enegrecida, pergunto-me (mentalmente): porque
uma árvore desse porte foi cortada. Vejo outras delas tombadas,
menos imponentes. Restos de galhos ainda estão espalhados pelo
chão. Agora tem um outro cheiro o ar: terra úmida. E tudo
aparece marrom, as folhas estão secas e faz outro som, quando piso.
Não mais arenoso, nem só de folhas; é mais compacto.
Os raios que vêm dos pinheiros são diferentes, o verde está
bem mais escuro. A estrada começa a fazer uma longa curva para
a direita; não dá para ver muito mais adiante. Penso em
voltar. Continuo andando. Vejo: a capa do livro que há pouco eu
lia - As ilusões da liberdade - sobre a vida e a obra de Nina Rodrigues,
trechos de um artigo sobre economia solidária, tipos gráficos
aleatórios. O sol começa a arder na minha pele; levemente.
As folhas das árvores balançam compassadas; o único
movimento que percebo. Dou meia volta. Olho pra cima: duas volumosas nuvens,
muito brancas, em alta velocidade, chocam-se, misturam-se, viram uma coisa
só. Como é possível? Tapam o sol. Leia
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