Voltar - Paulo Palladini


A volta

Já entramos firmes em fevereiro, às portas do carnaval, e só agora retorno de minhas prolongadas férias. Não que eu tenha propriamente descansado durante esse período. Apenas troquei algumas atividades por outras. Carreguei pedras. Talvez esta seja uma boa maneira de descansar. Devo artigos para A Mococa, Página de Idéias e meu blog Todos os Cantos. Conto com a complacência de meus editores. Viramos o ano com mudanças de governos municipais. Os novos governantes assumem com muitas idéias e propostas, e uma baita crise que ninguém ainda sabe direito o que é. O espectro de uma crise econômica mundial e seus incontáveis fantasmas assombram os quatro cantos desse planeta quadrado. Desemprego em massa. Empresas antes consideradas sólidas desmoronam, países considerados sólidos desmoronam. Alguns pensantes, como meu amigo Getúlio Cardozo, e também o sociólogo alemão Robert Kurz, de uma esquerda radical, vêem nessas crises que se sucedem os sinais de esgotamento do capitalismo. Os espasmos finais de um sistema que já deu o que tinha que dar. Não tenho tanta certeza. Queria ter. Mais velho, estou também mais conservador ( tal fenômeno não é raro; ao contrário, é muito mais comum do que podemos imaginar). Evoco aqui um livro de Roxa Luxenburgo, militante de esquerda há quase um século atrás: Reforma ou revolução? Nele a autora discute uma tese de Bernstein sobre a capacidade de adaptação do capitalismo. As crises do sistema capitalista acabariam por estimular sua extraordinária capacidade de adaptação e mudança. Aquele tipo de mudança, claro, que muda para deixar tudo como sempre esteve. Isto é: o poder nas mãos de quem tem poder, o dinheiro nas mãos de quem tem dinheiro. Políticas compensatórias, inclusão social, universidade para todos, facilidades de crédito, diminuição de juros, democratização, e até a ascensão de lideranças populares de esquerda, nada disso mudaria a essência do capitalismo. As forças contrárias e contestatórias são quase sempre engolidas, catabolizadas e transformadas num produto quase inóquo. Muitas vezes sem sabor e sem cheiro. Assim foi com as experiências anarquistas, os movimentos sindicais, a contracultura e a maioria das revoluções. Músicos e escritores, jornalistas que protestavam, todos foram aos poucos absorvidos, não sem antes passarem por um processo de depuração. Tomemos como exemplo dois ícones do século XX: Mao e Che. O primeiro virou retrato nas mãos de Andy Warhol, o segundo estampa de camiseta. Nenhum representa mais ameaça ou perigo, nenhum encarna mais mudança alguma. Os meios de comunicação, a propaganda, as escolas, tudo pasteurizam; ao seu toque, tudo vira uma pasta amorfa. Como as frutas de hoje em dia: tratadas quimicamente todas têm aquele mesmo sabor de quase nada. Manga, mamão, abacaxi, banana, pêra, maçã. São a mesma coisa. Contudo, voltando à política, ninguém faz alianças com as forças mais retrógradas e corruptas impunemente. Uma liderança como a do presidente Lula só pôde viabilizar sua ascensão ao poder fazendo vastas alianças e concessões. Do contrário dificilmente seria eleito. Para governar, a mesma coisa; olhemos para o triste espetáculo protagonizado nos últimos dias pelo Congresso Nacional. Refiro-me às eleições para as mesas diretoras. O que dizer, a não ser (apontando o dedo): olha eles aí outra vez! Para que, meu Deus? Confesso que cansei desse jogo político perverso. Atinge em cheio o meu plexo solar. Ainda bem que semana que vem ainda é fevereiro; e tem carnaval.

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Paulo Palladini