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Já
entramos firmes em fevereiro, às portas do carnaval, e só
agora retorno de minhas prolongadas férias. Não que eu tenha
propriamente descansado durante esse período. Apenas troquei algumas
atividades por outras. Carreguei pedras. Talvez esta seja uma boa maneira
de descansar. Devo artigos para A Mococa, Página de Idéias
e meu blog Todos os Cantos. Conto com a complacência de meus editores.
Viramos o ano com mudanças de governos municipais. Os novos governantes
assumem com muitas idéias e propostas, e uma baita crise que ninguém
ainda sabe direito o que é. O espectro de uma crise econômica
mundial e seus incontáveis fantasmas assombram os quatro cantos
desse planeta quadrado. Desemprego em massa. Empresas antes consideradas
sólidas desmoronam, países considerados sólidos desmoronam.
Alguns pensantes, como meu amigo Getúlio Cardozo, e também
o sociólogo alemão Robert Kurz, de uma esquerda radical,
vêem nessas crises que se sucedem os sinais de esgotamento do capitalismo.
Os espasmos finais de um sistema que já deu o que tinha que dar.
Não tenho tanta certeza. Queria ter. Mais velho, estou também
mais conservador ( tal fenômeno não é raro; ao contrário,
é muito mais comum do que podemos imaginar). Evoco aqui um livro
de Roxa Luxenburgo, militante de esquerda há quase um século
atrás: Reforma ou revolução? Nele a autora discute
uma tese de Bernstein sobre a capacidade de adaptação do
capitalismo. As crises do sistema capitalista acabariam por estimular
sua extraordinária capacidade de adaptação e mudança.
Aquele tipo de mudança, claro, que muda para deixar tudo como sempre
esteve. Isto é: o poder nas mãos de quem tem poder, o dinheiro
nas mãos de quem tem dinheiro. Políticas compensatórias,
inclusão social, universidade para todos, facilidades de crédito,
diminuição de juros, democratização, e até
a ascensão de lideranças populares de esquerda, nada disso
mudaria a essência do capitalismo. As forças contrárias
e contestatórias são quase sempre engolidas, catabolizadas
e transformadas num produto quase inóquo. Muitas vezes sem sabor
e sem cheiro. Assim foi com as experiências anarquistas, os movimentos
sindicais, a contracultura e a maioria das revoluções. Músicos
e escritores, jornalistas que protestavam, todos foram aos poucos absorvidos,
não sem antes passarem por um processo de depuração.
Tomemos como exemplo dois ícones do século XX: Mao e Che.
O primeiro virou retrato nas mãos de Andy Warhol, o segundo estampa
de camiseta. Nenhum representa mais ameaça ou perigo, nenhum encarna
mais mudança alguma. Os meios de comunicação, a propaganda,
as escolas, tudo pasteurizam; ao seu toque, tudo vira uma pasta amorfa.
Como as frutas de hoje em dia: tratadas quimicamente todas têm aquele
mesmo sabor de quase nada. Manga, mamão, abacaxi, banana, pêra,
maçã. São a mesma coisa. Contudo, voltando à
política, ninguém faz alianças com as forças
mais retrógradas e corruptas impunemente. Uma liderança
como a do presidente Lula só pôde viabilizar sua ascensão
ao poder fazendo vastas alianças e concessões. Do contrário
dificilmente seria eleito. Para governar, a mesma coisa; olhemos para
o triste espetáculo protagonizado nos últimos dias pelo
Congresso Nacional. Refiro-me às eleições para as
mesas diretoras. O que dizer, a não ser (apontando o dedo): olha
eles aí outra vez! Para que, meu Deus? Confesso que cansei desse
jogo político perverso. Atinge em cheio o meu plexo solar. Ainda
bem que semana que vem ainda é fevereiro; e tem carnaval. Leia
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