Voltar - Paulo Palladini

A arte de ser medíocre

Quando gosto de um artigo que leio em algum jornal ou revista costumo recortar e guardar. Nem sempre volto a lê-lo. Mais ou menos como recomenda a jornalista Véronique Vienne, autora de A arte de viver bem com as imperfeições, livro que ganhei de presente de uma cliente: tome nota das coisas e esqueça as anotações. Algumas, no entanto, vale a pena lembrar. Tenho diante de mim um artigo do físico e professor Rogério Cezar de Cerqueira Leite, para a Folha de São Paulo. Fala da mediocridade justamente onde ela não deveria entrar, na universidade. Ora, somos seres humanos e mediocridade faz parte da nossa condição. Basta olharmos ao redor, ou, melhor ainda, para o próprio umbigo. Diz ele: ...”ao menos em sua maioria, o medíocre é humano e conseqüentemente tentará eliminar seu inimigo declarado, o intelectual de talento. Eis porque, quando um medíocre ascende a uma posição de mando, ele se cerca de medíocres, que por sua vez, também procurarão suprimir quaisquer perspectivas de realização intelectual. Não há nada mais ameaçador do que alguém mais talentoso do que nós. Por outro lado, também, é verdade que homens capazes sentem uma certa aversão pela mediocridade”... Pronto, se isso acontece no interior de nossas melhores universidades, o que não esperar na vida cotidiana, no ambiente de trabalho, na política... E quando a mediocridade vem acompanhada de arrogância, então o quadro é mais feio ainda. O professor Cerqueira Leite recomenda formas de organização social para conter o avanço da mediocridade, que como uma onda, vai invadindo todos os escaninhos da vida inteligente. Pensa ele numa forma de controle externo, que impediria o acesso de medíocres a postos importantes no interior das instituições; aqueles locais, justamente onde não deveriam estar. Mas, se pensarmos que ninguém é totalmente medíocre como ninguém é totalmente competente, inteligente e capaz, o ideal talvez fosse uma educação que estimulasse a auto-crítica e o desenvolvimento de uma personalidade harmônica e positiva. Que ajudasse na formação de pessoas capazes de identificar e inibir a mediocridade dentro si. Porque é muito fácil ver a mediocridade nos outros; difícil é encará-la dentro de nós mesmos. Mediocridade não é maldade, mas o medíocre tem pouca condição de avaliar suas habilidades, e costuma achar que pode realizar feitos, que na verdade são inalcançáveis O médico Drauzio Varella, que foi meu professor, escreveu na Ilustrada uma análise crítica do juramento de Hipócrates, que todo médico recita no momento da formatura: “O que faz da medicina uma profissão respeitável não são as noites em claro nem o conteúdo do que juramos uma vez na vida, muito menos a aparência sacerdotal, mas o compromisso diário com os doentes que nos procuram e com a promoção de medidas para melhorar a saúde das comunidades em que atuamos... Medicina não é profissão para aqueles que têm preguiça de estudar”. E mais: “Muitos procuram nossa profissão imbuídos do desejo altruístico de salvar vidas. Nesse caso, encontrariam mais realização no Corpo de Bombeiros, porque a lista de doenças para as quais não existe cura é interminável. Curar é finalidade secundária da medicina, se tanto; o objetivo fundamental de nossa profissão é aliviar o sofrimento humano”. A combinação de mediocridade com arrogância, de fato, nunca dá bons resultados, mesmo quando imbuída das melhores intenções.

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Paulo Palladini