Voltar - Paulo Palladini

É apenas rock’n roll

Em 1998 os Rolling Stones passaram pelo Brasil como um furacão. As apresentações no Rio de Janeiro e em São Paulo tiveram ampla cobertura da imprensa e, fato inédito, transmissão ao vivo pela Rede Globo. Eis aí uma das boas coisas que a TV pode fazer. A banda inglesa, embora registre em sua história a própria história do rock, mostrou-se em grande forma, esbanjando energia. O velho e básico rock’n roll: baixo, bateria e guitarras. It’s only rock’n roll. Um momento em especial atraiu-me a atenção, talvez o mais bonito do show no Rio. Deixando de lado o mega-palco os quatro músicos (seriam cinco?) transportaram-se para um pequeno tablado no meio do público, recriando a atmosfera da época em que tocavam em clubes para 300 pessoas em vez de 30.000. Nostalgia? Na MTV Keith Richards havia dito que eles gostam de tocar em locais pequenos para pequenas platéias. Naquele espaço exíguo, muito próximos uns dos outros, tocaram quatro músicas; uma delas, I Just Want to Make Love to You, proporcionou, talvez, o momento mais emocionante do espetáculo: um blues, antiga gravação de Muddy Waters, o homem que eletrificou a guitarra e trouxe o blues para o território urbano. Foi dessa fonte que os Stones sempre beberam e alimentaram seu som. Sempre o reconheceram também, como atesta a rememoração do velho compositor, cantor e guitarrista de blues. Aliás, a expressão rolling stone aparece em verso de outra gravação de Muddy, um clássico do blues elétrico: I’m a Man. Por seu turno Waters gravou Let’s Spend the Night Together, de Jagger e Richards. A força dos Rolling Stones vem de suas raízes firmemente plantadas no blues. A outra grata convergência em torno da idéia de pedras rolantes ( e que por rolarem não criam limo, não envelhecem), foi a aparição de Bob Dylan no show dos Stones, cantando um dos seus grandes sucessos: Like a Rolling Stone. Na ocasião, excurcionava pela América do Sul com seu próprio show: Time Out of Mind, cujo CD ganhou o prêmio Grammy de melhor disco do ano nos EUA. Bob cruzou o caminho dos Stones e decidiu dar uma canja em Bridges to Babylon. Jagger e companhia já haviam incluído a composição de Dylan nas apresentações daquele ano e chegaram a gravá-la em disco. Vê-los juntos dividindo o mesmo palco foi uma benção. De fato uma apresentação para muitas gerações. Foi marcante o comparecimento maciço de jovens e adolescentes, provando que o rock básico, herdeiro direto do blues eletrificado, continua sendo um dos fundamentos da música popular e continua embalando os sonhos juvenis de todas as idades, mesmo daqueles que nunca dormiram num sleeping-bag.

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Paulo Palladini