Ao vencedor os coquetéisA Universidade de São Paulo – USP – figura como a instituição universitária brasileira mais bem colocada numa classificação mundial. Se bem que em 178ª lugar. Como a melhor, imagino que escolha os melhores alunos, aqueles que enfrentam o vestibular mais difícil e concorrido. Sempre considerei os estudantes da USP como a elite universitária do país. Por isso foi grande meu espanto ao ver, entre as manifestações dos estudantes que invadiram a reitoria no campus, um cartaz com a inscrição: “PM, cão de guarda da elite”. Os estudantes protestavam, entre outras coisas, contra a presença da polícia militar. Face aos inúmeros crimes registrados ali nos últimos tempos, como roubos, furtos, assédio e até homicídio, uma das medidas tomadas pelo poder público foi requisitar a presença da PM. O governo se prontificou a montar bases e capacitar policiais para atuarem naquele ambiente. Porém, em vez de se sentirem protegidos, os estudantes se sentiram ameaçados, principalmente quando alunos foram abordados. Como portavam maconha foram conduzidos a delegacia. Pronto, estava armada a confusão. De um lado os estudantes (pequena parte deles, é verdade) e alguns professores, de outro governo-PM-reitoria. Resultado: assembleias, invasão, protestos, negociações. Entre idas e vindas a Justiça determinou a desocupação. Tropa de choque iminência de confronto. Esvaziado o prédio, a constatação: pichações, depredações, sujeira por todo lado, lixo, destruição de equipamentos. Os estudantes disseram que não foram os responsáveis; os policiais também. Estudantes enfrentando a tropa de choque. Para mim esta cena é de outros tempos, quando a polícia, instrumento do Estado, e portanto, da cidadania, era usada para proteger um regime opressivo. E não os cidadãos. Era luta em defesa das liberdades democráticas, que nos tinham sido surrupiadas. A questão hoje é bem outra: vivemos num tempo de direitos reconhecidos; governados por representantes legitimamente escolhidos. Muitos deles foram estudantes que ergueram barricadas contra a ditadura. Apesar de tudo o que vivemos, aprendemos liberdade não é ilimitada. Se não fizermos dela o bom uso, perdemo-la. Fico aqui pensando no prédio da reitoria, no seu significado para a comunidade acadêmica. É símbolo do poder institucional, certo, como apontaram alguns estudantes, mas também encarna a história da universidade, sintetiza-a. Como tal deve ser respeitado. Há imagens que não podem ser tocadas, como se sagradas fossem. Há coisas que não podem ser feitas. Botar pra quebrar não é resposta para a maioria de nossas indignações. Como não é resposta a violação da integridade física de alguém. Ou do seu domicílio inviolável. Como não é a tortura. A violação deixa marcas indeléveis. Todo esforço deve ser dispendido para que não se consuma, sob pena de forte reação. Na USP a Justiça determinou a desocupação. O local é público, não pode ser tomado por ninguém. Mas foi preciso o emprego da força policial. O caminho do diálogo, do debate inteligente, àquela altura já estava bloqueado. Restaram lixo e coquetéis molotov.
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