Voltar - Paulo Palladini

AI-5, a certidão de batismo da ditadura

No dia 13 de dezembro, 40 anos atrás, em histórica reunião ministerial, o governo do general Costa e Silva impunha ao país o Ato Institucional Número 5, o famigerado AI-5. Apoiado por quase todos os presentes o documento revelou-se a própria certidão de batismo da ditadura. A partir de sua imposição todas as garantias constitucionais foram suspensas. O presidente passou a ter o poder de mandar prender qualquer cidadão, suspender os direitos dos opositores, cassar mandatos políticos, expulsar estudantes das universidades, censurar a imprensa, dissolver o Congresso, manietar o Judiciário. Tudo isso foi feito e muito mais: à sombra do general-presidente e seu ato institucional os brasileiros assistiram às mais degradantes violações da condição humana. Generalizaram-se as torturas, as prisões ilegais, os desaparecimentos, as mortes. O golpe militar de 64 havia deposto um presidente eleito pelo voto popular e cometera inúmeras arbitrariedades. Mas acenava com a esperança de uma rápida volta à normalidade democrática. Respirava-se relativa liberdade. O AI-5 pôs fim à esperança e ao que restava de liberdade; passou a subordinar ao presidente da república todas as leis brasileiras. Uma aberração jurídica. Nas democracias é o presidente que se subordina às leis, não o contrário. Todas as garantias legais foram suspensas, a carta constitucional foi atirada ao lixo. E se as leis foram para o lixo para que casa legislativa? Fecha o Congresso! Se não há garantias legais manda a oposição pra cadeia, cala os descontentes! Fecha jornal e revista, invade rádio e TV! Censura! (um censor decidirá que notícias veicular). Dissemina o terror através da brutalidade. Planta o medo paralisante. Não houve setor da vida nacional que ficasse indiferente ao fechamento do regime e até hoje há muito que esclarecer. O livro Brasil: Nunca Mais ( Editora Vozes), prefaciado em 1985 por Dom Paulo Evaristo Arns, é o mais amplo retrato dos porões do regime: dá os nomes de torturados e torturadores, descreve o que acontecia entre eles, aponta os locais das ações. E com o tempo mais revelações vieram se somar à memória daqueles anos. Um ex-tenente do exército confessou ter torturado cerca de trinta presos políticos e a Rede Globo chegou a divulgar gravação do encontro que selou o AI-5. Embora a fita nada revelasse que já não fosse de domínio público, é interessante ouvir de viva voz os personagens da tragédia. E lembrar, por exemplo, da postura digna do então vice-presidente Pedro Aleixo, que se recusou a referendar o Ato e de outros que não se importaram e mandaram às favas os escrúpulos de consciência. Descobrimos, também, que foi falada ali a palavra ditadura e concluímos que tal regime não foi, portanto, uma invenção da esquerda.

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Paulo Palladini