Voltar - Paulo Palladini


A história

Passamos, semana atrás, pelo dia 21 de abril, uma das nossas datas históricas. Fui pesquisar meus arquivos e descobri que eu nunca escrevi sobre esse assunto. Talvez por não me sentir suficientemente seguro. Afinal, o que sei da história do Brasil? Um ou outro fato isolado. Alguns pensadores afirmam que é assim mesmo, essa sensação de incompletude, de que falta algo em nosso conhecimento. Isso porque a historiografia é mesmo sempre incompleta e imprecisa. E também porque a história é uma interpretação dos acontecimentos individuais e coletivos. Não podemos ter certeza de que as coisas aconteceram daquele jeito. A história precisa ser escrita e reescrita à luz de novos fatos e novas interpretações. Não só os fatos históricos, os fatos humanos são assim. A realidade humana é assim. A realidade humana é subjetiva e simbólica. Queremos torná-la objetiva, a ciência representa um enorme esforço por tornar a realidade objetiva. Mas ela própria não escapa às injunções subjetivas. Pois só podemos captar o mundo com a mente e nossa mente capta as coisas do seu modo peculiar. Só podemos fazê-lo através dos sentidos e só podemos interpretá-lo através do nosso cérebro. O pensamento humano é o grande instrumento de interpretação do mundo. Pensemos nas divergências de duas pessoas sobre determinado assunto e já temos uma idéia de como é difícil atingir um consenso. E é disso que se trata: consenso. O grande esforço humano é a busca de consensos, seja sobre uma norma de conduta, o estabelecimento de uma fronteira, uma descoberta ou um fato histórico. Vou dar um exemplo: o encadeamento de uma série de acontecimentos culminou com a fundação da cidade de Mococa. Carlos Alberto Palladini, em seu livro Assim Nasceu Mococa, descreveu os principais eventos: “Entusiasmado pelo já considerável movimento agrícola e comercial da região e contando com a colaboração de José Pereira dos Santos, Gabriel Garcia de Figueiredo, Diogo Garcia de Figueiredo e José Gomes de Lima – apesar de não ter cuidado, de imediato, da construção da capela - Venerando Ribeiro da Silva conseguiu a criação oficial do povoado, através da lei nº 15, de 25 de fevereiro de 1841. O povoado foi reconhecido e elevado a Capela Curada pelo bispo D. Manuel Joaquim Gonçalves de Andrade, com o nome de São Sebastião da Boa Vista”. Ocorre que o aniversário da cidade é comemorado em 5 de abril, e não em 25 de fevereiro. A fundação de Mococa é creditada a outra data e outro fato histórico. Apesar dos argumentos do professor não percebi nenhuma mobilização para mudar a data e, consequentemente, a idade de Mococa. Se o conjunto de seus cidadãos reconhecer seus argumentos como os mais lógicos e corretos, à luz dos fatos históricos que ele apresenta, haverá um novo consenso. E Mococa já terá, agora, 169 anos.

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