A terra: plana não éDe globalizado mesmo, até agora, igualmente distribuído, somente o clima. Quente ao extremo, ou extremamente frio. Seco demais, ou úmido até os ossos. A economia mundial deu uma leve mexida, algumas regiões se integraram. Mas outras foram simplesmente excluídas do processo, gerando não-economias, esforços inúteis, oportunidades perdidas no espaço. Milhões de não-pessoas dão as caras, todo dia, nos noticiários. Contraditoriamente não-seres humanos. Ficam à espera de alguma coisa, que não sabem bem o que é. Uma nave brilhante, donde um índio descerá, talvez, ou qualquer outra intergaláctica criatura, entre luzes e brilho, portando estandartes tão rubros como um vinho chileno. Corações e mentes jorrando bem no centro geográfico da mãe África. Quando Nelson Mandela chorou, milhões de cartas voaram mais que as botas dos tenentes, dançaram mais que duas dezenas de Tutus endiabrados. E fez-se o riso e a mão espalmada. Seus olhos apertados olharam por entre as lentes douradas da grande gaiola. Onde antes era selva impenetrável hoje é capim seco e bagaço de cana; e restos de soja caídos do último caminhão. Alguns paus-de-arara se perderam no caminho; lançados como dejetos, como restos de feira insana. Como folha de agrião pisada, como semente de goiaba. É savana, é serrado. Hoje podemos afirmar que quase nenhuma das densas florestas tropicais sobreviveu. Umas viraram lagos de águas tão límpidas quanto tóxicas. Outras, árido terreno. E não foi preciso chuva ácida ou napalm, nem nenhum cogumelo atômico. Nem elefante-bomba, nem o leão-de-Judá. Apenas a metódica, persistente, incorrigível, nada aleatória, sistemática substituição da exuberância natural pela monotonia virtual. O mesmo tom de verde no vestido e no quadro negro. A matemática é simples: onde havia uma árvore dez pés de cana. E nada de açúcar; a oferenda é de álcool puro filtrado e cristalino. Depois de acabada qualquer pretensão de açúcar, abramos as narinas ao líquido incensório: é álcool puro. Para movimentar os carros e as cabeças. Muito ainda teremos que fazer para abrir todos os buracos a que temos direito na camada de ozônio. Para um efeito estufa da altura de nossa prepotência e arrogância. Afinal, o que queremos? Destruir o planeta com um botão? Um bastão? Afiadas foices sem martelo? Bocas desdentadas? A resposta é: máquinas, muitas máquinas no lugar do humano, esse entrave insensível e ignorante! Tornemos logo tudo maquinaria! Ferro contra ferro nos pulsos e nos tornozelos: coleira eletrônica, capacete de gelo contra cabeça quente. A moda é ficar frio e não esquentar. Pinguins, milhares deles aportaram em Copacabana. E também em Ipanema. Golfinhos subiram o Pardo; de onde vieram ninguém sabe. Muitos morreram se debatendo no leito quase seco do rio. Meia dúzia de engravatados debatia debaixo de uma palmeira. A temperatura estava e continuará muito alta. Vento forte, chuva de canivetes; rasgam a pele e o sangue não coagula. O mundo já foi bem diferente. Tomar sol, acreditem, já foi considerado saudável. Hoje deve ser evitado por perigoso demais. Pele morena não, bonito é o branco total radiante. Dentes amarelados não, só os alvos como a neve. Derrete como um sorvete fora do congelador. Tem coisas que nunca entendi, e talvez nunca venha a entender. Nem há mais tempo para entender coisa alguma. Todos só querem sombra e água fresca. Tanto uma como outra, em breve, estarão indisponíveis. A Amazônia, que cobre a maior parte do território brasileiro, é a dona de todas as sombras. E também é a dona de todas as águas doces do planeta. Acabou. Vocês vêm ou será tarde demais? Leia
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