Voltar - Paulo Palladini

A felicidade...

Um artigo sobre o furto de uma revista de dentro da minha caixa de jornais por uma adolescente, na companhia da própria mãe, anos atrás, teve boa repercussão. Recebi, na época, vários e-mail de leitores confirmando a experiência relatada aqui, e corroborando os pontos de vista emitidos. Penso a pequena violência em relação direta com determinado padrão de consumo exigido pela sociedade. Há uma cultura do consumo, que valoriza o vestuário de marca, o corpo perfeito, o carro do ano,  casarões, viagens fantásticas, todas as engenhocas eletrônicas disponíveis. Não é preciso dizer que esses bens são inacessíveis para a maioria. Mas todos somos estimulados a consumir. Nossa individualidade é estimulada, o instinto de posse, a necessidade de aprovação. Somos pegos pela afetividade mais primitiva. Para se sentir aceita a pessoa busca a aprovação dos outros, a posse de produtos e mercadorias valorizadas socialmente. Desenvolve  uma forte relação de apego com o meio  físico e social baseada no binômio posse-aprovação. Outros sentimentos sociais como a capacidade de se ligar afetivamente a valores supra-individuais e a capacidade de aceitação amorosa profunda, que poderiam equilibrar a personalidade não são estimulados. A felicidade individual parece ser o único objetivo. Mas como já dizia o poeta, “é impossível ser feliz sozinho”. E é impossível ser feliz consumindo mercadorias. Porque felicidade é paz de espírito, nas palavras do Dalai Lama. Felicidade é harmonia mental, que só atingimos no interior da personalidade através da integração dos instintos da individualidade com os sentimentos sociais. A satisfação do lado egoístico da personalidade, principalmente a posse de bens materiais está longe de proporcionar felicidade. Em entrevista à Folha de São Paulo Gregg Easterbrook, jornalista e autor de um livro sobre o assunto, Progress paradox,  afirmou: “as pessoas cometem um erro ao acreditar que bens materiais trazem felicidade”... “o aumento da aquisição de bens materiais não é proporcional à evolução do grau de satisfação”. Ao contrário, quanto mais consomem as pessoas ficam mais insatisfeitas, porque as pressões para consumir se tornam cada vez maiores. É um processo sem fim. Diz Easterbrook que nos países, que já superaram a miséria e a fome crônicas, “o aumento dos padrões de vida não é acompanhado por um aumento de felicidade. Os sinais são claros. Em todos os países desenvolvidos a depressão toma uma dimensão de epidemia”. Por outro lado, hoje as pessoas vivem mais, têm mais recursos para a manutenção da saúde e do bem estar, dispõem, de modo geral,  de mais conforto e comodidade. Parte do problema é não saberem valorizar esses aspectos positivos, e cultivarem uma atitude negativa, que só vê o lado ruim as coisas. Em outras palavras: as pessoas olham para o que lhes falta, não para o que têm. Para Easterbrook os meios de comunicação põem muita ênfase nas notícias ruins. “Num mundo com 6 bilhões de habitantes sempre alguma coisa errada vai acontecer. Esse tipo de divulgação provoca a sensação de que tudo está errado no mundo”. Mas há meios de equilibrar os lados negativo e positivo das coisas, buscar a harmonia interna, o caminho da moderação.                 

Leia pc.palladini.zip.net
Paulo Palladini