Voltar - Paulo Palladini

A despedida. Adeus

Rubem Alves, teólogo, professor, psicanalista, escritor adulto e infantil, e mineiro, cronista da Folha de São Paulo, anunciou, nesta semana, que deixará de escrever para o jornal. Aos 78 anos de idade publicou sua última crônica neste dia primeiro: Despedida. Declarou estar cansado e não suportar o peso da obrigação de ter um texto pronto toda semana. Frisou o cansaço e a obrigação também. Para quem não está familiarizado com o ato de escrever,  isto pode parecer fácil. É só sentar que a inspiração vem. Mas não é assim. Muitos textos fluem numa sentada; porém, na maioria das vezes, a construção de um texto é laboriosa. Um lampejo pode lançar a ideia, o tema. Já o texto pronto para ser publicado é fruto de intensa elaboração. Elaborar é laborar. Entram em campo todas as capacidades intelectuais do autor: a observação dos aspectos concretos e abstratos, as induções e as deduções, a análise e a síntese, a compreensão e a interpretação. E além de tudo a capacidade de comunicar o que foi elaborado. E mais um pouco ainda: grafar com relativo respeito às regras gramaticais, o que nem sempre é tarefa fácil. Nossa língua portuguesa é bela e complexa. Rubem Alves cansou. O envelhecimento é um fator a ser considerado. Ele não declarou nenhum problema de saúde. Freud também se referiu a esse cansaço da velhice. Foi além, chegando a afirmar que a gente morre porque cansa de viver. Teríamos, segundo ele, condições físicas e psíquicas  para viver muito mais tempo. Mas o cansaço... “Viver é muito cansativo”, costumava dizer uma amiga, até hoje muito viva. Rubem Alves não disse estar cansado de viver. Não quer mais a obrigação de escrever. Deixou aberta a possibilidade de continuar escrevendo - deve continuar - mas só quando tiver vontade. Ou inspiração, sei lá... Gosto muito das coisas que escreve. E é natural em nós querer preservar o que gostamos. A despedida de Rubem Alves vem nos relembrar que tudo tem um fim. Caminha para um fim. Muitas vezes na vida controlamos este momento, podemos determinar a hora de parar. É este o caso. Ele decidiu parar. Mas talvez as coisas mais importantes sejam aquelas que nos escapam, cujo poder de decisão nos escapa. E acabam. Uma canção de Renato Russo – Por enquanto - fala disso: Se lembra quando a gente/ chegou um dia a acreditar/ que tudo era pra sempre/sem saber que o pra sempre/ sempre acaba. Talvez nos reste um jeito de preparar o fim, como faz Rubem Alves. Determinar o fim. Talvez não aja e o poder de parar seja mera ilusão. Chega um momento e, simplesmente, ponto final. Então: adeus Rubem Alves! Sua despedida me faz refletir sobre meus próprios processos de construção das coisas, seu fim, e minha própria finitude. Adeus! Talvez nos encontremos em outras paragens.
                                                                                                
PS: No artigo anterior afirmei que o mundo tem 6 bilhões de habitantes. Naquela mesma semana foi divulgado que já atingiu 7 bilhões.

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Paulo Palladini