Chove chuvaChuva. Chove chuva. Chove sem parar. Preces não adiantarão. Nem seria. Até porque chuva é algo bom. O compositor Jorge Mautner ama a chuva. Várias de suas composições tem por tema esse amor pela chuva. Eu também gosto, principalmente daquelas chuvas mansas, que encharcam a terra e despertam seus perfumes, acordando as sementes. Porém, como todo fenômeno natural, ela pode fazer estragos. E faz. Nessa virada de ano muita gente ficou desabrigada. É rio transbordando, é encosta deslizando. Sofrem as populações das baixadas e dos morros. Umas porque suas casas inundam, muitas até a altura dos telhados. Perdem tudo que é móvel. Quando não a própria casa, que não resiste a tantas águas. Os que tem suas casas nas encostas de morros podem vê-las partidas ao meio ou arrastadas morro abaixo. Aconteceu no Rio de Janeiro e em Minas Gerais também. Os desabrigados contam-se aos milhares. E uma vez mais o poder público (nome genérico) não reagiu à altura dos acontecimentos: prevenindo, cuidando. Embora alertadas por episódios recentes que deixaram marcas profundas, as autoridades só se moveram, quando a tragédias já se consumavam. Tanto as autoridades como as vítimas das tragédias anunciadas são responsáveis pelas consequências. Pelas causas não. A natureza é indiferente à nossa presença no planeta, nossos desejos e nossas necessidades. Uma onda gigante varre tudo à sua frente: hotéis, barcos, automóveis, mulheres grávidas, crianças, idosos. Uma enchente arrasta tudo o que estiver à sua frente. Se as águas sobem elas invadem tudo, destroem nossos bens mais preciosos. A natureza não é dotada de uma moral. Para ela não existe o certo e o errado. Os fenômenos que desencadeia têm uma dinâmica própria, independentemente das vontades humanas. Certo é que nós interferimos demais. Toda a nossa ciência procura dominar e dirigir os fenômenos físicos, químicos e biológicos para fins humanos. A terra inteira deve se submeter aos caprichos do homem. Nosso estilo de vida depende da exploração de recursos naturais. Nossa civilização é uma construção coletiva e histórica cujo corolário é a desnaturalização do homem. Tudo o que consideramos humano é resultante desse processo de desnaturalização: máquinas, aparelhos, tecnologias, enfim, que estabelecem uma clivagem entre humanidade e natureza. Uma contraposta a outra; uma competindo com a outra. Pensadores como Piotr Kropotkin já nos alertaram para uma característica: mesmo a natureza não é só competitiva, ela é também cooperativa. As várias formas de vida não só competem entre si como cooperam. Dotados dessa consciência podemos escolher entre atitudes competitivas e cooperativas. Nas filas dos supermercados, no trânsito, nos locais de trabalho, entre empresas, grupos populacionais. Creio que mais cooperação e menos competição é melhor para a humanidade. E chuva, chuva não é coisa má, que precisa ser detida com preces. Ela é boa e necessária. Não é, talvez, para quem constrói suas casas nas encostas. Está escrito na Bíblia para construirmos nossas casas em terreno firme. Tal recomendação vale também para nossas famílias. É firme a base sobre a qual constituímos nossas famílias? Estimulamos tanto a competição como a cooperação? Nossos filhos caminham a favor e contra o vento... Leia
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