Voltar - Paulo Palladini

3 30 300

Título estranho para um artigo, não é? Mas é sobre violência. Ninguém sabe o que fazer com ela. Num único dia, em determinado lugar do globo, podem ter morte violenta 3 pessoas, 30 pessoas ou 300 pessoas.
Três corpos são encontrados no porta-malas de um carro em movimentada avenida. São corpos jovens, trazem os rostos desfigurados e as digitais raspadas. O dia está bonito e ensolarado. Muita gente vai à praia, mesmo com uma expressão de horror estampada e os narizes tapados. Corta. O pânico no prédio da escola é geral. Todos correm e gritam; ninguém sabe direito o que está acontecendo. Tiros são ouvidos. Também ninguém sabe quem atira, se é um ou se são vários os atiradores, nem de onde vêm as balas. Aparecem alguns feridos, corpos caídos no chão, gemidos. Alguns dos caídos parecem mortos; estão mortos. Somam trinta. O atirador, um estudante da mesma escola, também tomba. Acham que ele se matou. A comoção é geral. O esquisitão se vingou; foi seu último ato. Toda turma tem um esquisitão. Se alguém enlouquecer ou sair matando por aí será ele. Bode expiatório às avessas. Estava escrito nas estrelas. Todos sabem mas nada fazem para impedir a tragédia. Como agir antes que o crime aconteça? Em Minority Report eles sabem o que fazer em casos assim. Intervêm antes da consumação, podem antecipar um crime e prevenir. O futuro assassino é neutralizado. Corta. Uma multidão peregrina. Vêm de longe os peregrinos. Estão cansados e empoeirados. Avistam a ponte; logo mais poderão descansar, e tomar água fresca. Então, alguém grita: bomba! E todos correm, desabalados, sem direção nem sentido. Todos correm. Chocam-se, pisoteiam-se. Gritos, confusão. Deus é grande. Algum propósito oculto deve guiar tudo aquilo. Simplesmente não pode ser o que parece ser: o súbito e total desaparecimento de qualquer resquício de humanidade, racionalidade, bom senso. Ao fim, 300 mortos, mártires do nada, sacrificados do engodo e da ilusão. Restam soluços e nenhum vestígio de bomba. Em muitos lares será instalado, para sempre, o grande vazio, o silêncio que tudo envolve. Durará pouco, é verdade, pois um barulho muito mais ensurdecedor anunciará a morte de 3000. E a situação não ficará assim, a vingança, que se seguirá, multiplicará os eventos por 10, por 100 por 1000, conforme a ira contida e a frieza necessária. Cálculos, planejamento. Não se faz uma coisa dessas sem uma boa estrutura. A física e a matemática não têm ideologia. Toda forma numérica, como toda forma de amor, é válida. Tanto faz: 3, 30 ou 300. Um único indivíduo dilacerado é a humanidade inteira dilacerada. Enquanto não assimilarmos essa idéia até a medula dos ossos, até os menores linfáticos, teremos, todo dia, uma tragédia para lamentar. Não teremos paz. O terror não está nem aí para brincar. Para seus defensores quanto mais medo, quanto mais paralisia melhor. Nunca veremos a sua verdadeira face; a que nos mostrarem será sempre insuficiente. Uma exclamação circundará o corpo caloso de cada um de nós: isso não é possível! Porque, no fundo, um qualquer desses monstros de cara boa, que nos mostram, é nosso irmão. Poderíamos, em outra circunstância, ser amigos; ir juntos ao futebol, tomar cerveja à beira mar, e descobrir intrigantes atalhos por entre fazendas e chácaras. Mas, não, há um muro de Berlim separando cada um de todos os outros, uma muralha da China quase impossível de transpor. E não há mais lideranças, nem mundiais, nem regionais à altura dos desafios que se apresentam. O que foi anunciado, de fato aconteceu. Viro a ampulheta e o tempo recomeça. Tempo é areia, penso. Enquanto houver ampulhetas haverá também oportunidades e superação.

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Paulo Palladini