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11 de setembro: para não esquecer Lendo os jornais me dei conta de que, além do 11 de setembro a que nos acostumamos nos últimos dois anos, temos outro 11 de setembro. É o de 1973 quando um golpe militar no Chile derrubou o presidente Salvador Allende e instaurou uma das ditaduras mais brutais do continente. Trinta e sete anos já se passaram e eu reli dois artigos de Emir Sader e José Serra sobre o assunto. Procurei em meu baú e coloquei no toca-discos um vinil de Victor Jara, Canto Libre, seguido de Lo unico que tengo, do grupo Tarancón. Quase ninguém mais ouve vinis hoje em dia, muito menos os do grande compositor chileno. Menos ainda os do grupo que melhor divulgou no Brasil a música latino-americana. Acendi um cachimbo, coisa que há muito tempo não fazia. Pensei: o povo americano está mantendo viva a memória dos acontecimentos de 11 de setembro de 2001, quando os prédios do World Trade Center foram destruídos por uma ação terrorista. Não quer que as terríveis emoções que sentiu percam sua força. A ferida foi profunda demais para ele e não pode, simplesmente, ser esquecida. Os americanos estão fazendo como os judeus em relação ao holocausto: lembrar sempre para que a história não se repita. Mas ao sul do equador também tivemos nosso 11 de setembro. Mais próximo, mais nosso, mais doloroso talvez. Latino-americano. E quase o esquecemos. Não precisamos medir aqui qual deles inspirou horror maior. O disco do Tarancón é dedicado aos mortos de setembro no Chile; uma homenagem a todos os que foram assassinados nos primeiros momentos do golpe militar. Entre eles estava Victor Jara, cantor e compositor, uma espécie de Chico Buarque-Geraldo Vandré chileno. Lo unico que tengo é o título de uma composição sua que diz: y mis manos son lo unico que tengo/ y mis manos son mi amor e mi sustento. O disco do Grupo Tarancón foi lançado em 1977. No belo e pungente encarte leio: “Para Victor Jara eram suas mãos, e ele as perdeu”. Emir Sader, no seu texto, recorda que, preso e levado para o Estádio Nacional em Santiago, Jara teve as mãos amputadas e sangrou até a morte sob a vista dos outros prisioneiros. Foram muitos os mortos de setembro. Serra nos fala de um aluno da Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais, onde lecionava, que teve uma perna arrancada. No artigo Trinta anos esta manhã, ele conta sua saga pessoal, junto da mulher Monica, que é chilena, e dos filhos ainda pequenos. Exilado no Chile, justamente por causa da ditadura no Brasil, teve que lidar com um segundo golpe militar. Na manhã de 11 de setembro foi despertado pela notícia do bombardeio da sede do governo, o palácio de La Moneda. Eram as forças golpistas. Ali o presidente da república Salvador Allende morreu defendendo o mandato popular que lhe fora conferido pelos chilenos em eleições livres e democráticas. Relembrando escreveu Serra: “Comparado àquele banquete de felinos disputando suas presas, o golpe de 1° de abril de 1964 no Brasil parecia um delicado chá de senhoras”. Sabemos que o regime militar brasileiro não foi nenhum chá de senhoras. Teve também sua cota de horror e sofrimento; torturas, mortes, desaparecimentos. Feridas mal cicatrizadas que nossa memória procura impedir se repitam. Leia
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