|
O HOMEM QUE SE ALOJOU NA TORRE DO CELULAR Ninguém sabe os motivos que levaram aquele homem a tomar tal decisão. Tampouco sabiam seu nome. Era tratado como o “véio”. Sabia-se que era viúvo e na casa dos setenta anos. Mas não era um velho jurássico. Sua casa tinha aparelhinhos modernos. Um DVD aqui, uma TV de tela plana acolá, talvez internet de banda larga, conta bancária com cartão de crédito. Coisinhas da vida moderna. Nem seu nome foi revelado, mesmo após o desfecho de seu trágico ato. A cidade em questão era uma daquelas típicas do interior do estado. Na casa dos 100 mil habitantes, gente ordeira e trabalhadora, meio progressista, meio reacionária. O padre, o prefeito e o delegado ainda como autoridades máximas. Lugar de ar puro, com sinais de modernidade. Um prédio residencial de vinte andares, ruas e avenidas arborizadas, coreto na praça, muitos sobrenomes de origem italiana, refletindo a colonização relativamente recente, feita em torno da cultura cafeeira e imigração européia. Gente apressada, convivendo com as marcas da desigualdade social típica de um país subdesenvolvido. Tinha o bairro dos elegantes, da classe média e dos mais pobres. Furtos e homicídios dentro do tolerável. Talvez, pela corrida cotidiana e o individualismo capitalista, as pessoas demoraram a perceber o que ocorreu com o “véio”. Sobre ele, como disse, sabia-se pouco. Era solitário desde a morte da esposa. Os vizinhos comentavam que ele era uma pessoa discreta. Se tinha amante ou fazia sexo pago, isso ninguém soube dizer. Se aliviava com as mãos, já era bisbilhotar demais. Tinha um filho que nunca o visitava. Não moravam na mesma cidade e nunca foram vistos juntos. O fato é que não levava uma vida miserável, apenas solitária. Assistia televisão até tarde. TV paga. Assinava a “Folha de São Paulo”. Lia bem, sem necessidade de óculos, portanto não era um decrépito. Um belo dia, a maior torre de telefonia celular da cidade, que era o orgulho local, pois colocava o lugar na rota do desenvolvimento e da globalização, um megatério de 30 metros forjado de alumínio e aço, com todos os apetrechos ligados, conectados e pendurados, parou de funcionar misteriosamente. Um ruído incessante interferia nas transmissões, fazendo com que a central de atendimento aos clientes das operadoras ficasse entupida de reclamações. Eram comerciantes que não conseguiam fechar contratos, call girls que não conseguiam programas, fofoqueiras que não conseguiam fofocar e toda a gama de ligações diversas que não se completavam ou caíam pelo caminho. Tudo foi tentado: troca de aparelhos, mudança de freqüência, de operadoras. Nada. Aí, alguém teve a idéia de verificar a torre. Um técnico foi chamado para checar o local. Talvez um vento repentino, uma descarga elétrica, tivesse danificado algum aparelho ou mecanismo delicado e caro. Uma peça substituída e pronto. Tudo estaria resolvido e a comunidade poderia voltar à normalidade. Quando o técnico chegou à torre, que ficava perto de uma escola, em um bairro de classe média, tudo parecia normal. Mas ao observar bem, verificou que havia uma pessoa alojada na parte superior da torre, bem no alto, em meio às pequenas antenas, fios e cabos de conexão. Dali, debaixo, não se distinguia quem era. Sabia-se que era um homem. Estava lá, ajeitado naquela altura, sabe-se Deus como. O técnico gritou, pedindo para que o homem descesse de lá. Disse que era perigoso e inconcebível. Mentiu, alertando sobre os danos que a eletricidade estática e as microondas podem causar no cérebro. Tudo em vão. O homem mantinha-se impassível. Parecia ter uma sacola. Vez ou outra enfiava a mão lá dentro e comia algo. A cena surreal chamou a atenção da vizinhança. O técnico ligou na central e relatou o ocorrido. Em pouco tempo, algumas pessoas se aglomeravam aos pés da enorme torre, olhos voltados para cima, curiosos. Talvez a origem das interferências fosse o corpo do homem. As ondas não eram retransmitidas. Isso foi uma das hipóteses levantadas. Outra corrente dizia que, ao subir, ele havia desligado algum fio vital, por isso a torre não funcionava. O fato chamou a atenção da cidade inteira. Em pouco tempo, centenas de pessoas se acotovelavam ao redor da estranha e inusitada cena. Um homem alojado no alto de uma torre de celular. O que ele queria? Apreciar a vista? Cometer suicídio? Protestar contra algo? Matar alguém munido de um rifle com mira telescópica? Eram perguntas sem respostas, pois o homem não se manifestava. Só tirava, de vez em quando algo da sacola e comia. Não foi visto bebendo em nenhuma ocasião. O muro que cercava a torre foi derrubado. Barraquinhas de lanches foram rapidamente improvisadas. Camelôs vendiam binóculos para uma melhor observação. A polícia teve que levantar um perímetro de segurança. Até o prefeito e os vereadores foram vistos no local, mais preocupados com a própria imagem, do que com o homem em questão. Depois de longa discussão, as autoridades mandaram um policial experiente escalar a torre, para negociar e persuadir o homem a descer de lá e encerrar o estranho acontecimento. O fato quase terminou em tragédia, pois o policial foi recebido aos pontapés pelo homem. Ele levava vantagem, pois chutava de cima para baixo e estava bem seguro entre a armação de aço. Cansado e ferido, o policial desistiu. Nessas ocasiões de desespero, apela-se para a fé. Um padre foi chamado ao local. Com um megafone, entoou salmos, rezou , implorou. Tudo em vão. Uma discussão eclodiu no local, pois pastores evangélicos não concordavam que os católicos monopolizassem o evento. Uma cena e tanto, devidamente debelada pela polícia. Vinte e quatro horas se passaram e o cenário, pelo menos lá em cima, não mudava. O homem se mantinha impassível. Mas na base da torre, uma multidão não parava de crescer. Cidades vizinhas organizavam caravanas, que não cessavam de chegar. A notícia correu o Brasil e logo, a cidade entrou em cadeia nacional. Os jornais noticiavam de hora em hora o estranho acontecimento. Nessa altura dos acontecimentos, a multidão estava claramente dividida. Alguns queriam que as autoridades tomassem uma providência drástica. Outros defendiam o homem, ostentando cartazes. Um vizinho, observando pelo binóculo reconheceu o “véio”, agora chamado de "o homem da torre". Uma corda foi oferecida para que ele desistisse da idéia de ficar lá em cima para sempre, mas o homem simplesmente ficava imóvel, sempre comendo algo, retirado de uma sacola. Quando a CNN, poderosa emissora norte-americana veiculou a notícia, o mundo todo voltou-se para o Brasil e para a cidade que abrigava o bizarro acontecimento. Setenta e duas horas já haviam se passado e nada. Um medo tomou conta de todos. E se o presidente falasse em cadeia de rádio e TV, seria uma boa para convencê-lo a descer de lá? Ou Bush em pessoa, com tradução simultânea? Quem sabe o secretário geral da ONU? Ou o prefeito local? Os fatos fugiram do controle. A cidade havia parado. Quase ninguém trabalhava. Nos campos, no comércio, todos amargavam grandes prejuízos. O mesmo verificava-se em outras cidades brasileiras. Seria o homem um bruxo a enfeitiçar todos? Uma espécie de anticristo pós-moderno? Mas a notícia alarmante e que selou a sorte do pobre homem, veio de fora. As bolsas de valores apresentavam violenta queda, ocasionada pelos rumores de letargia na economia brasileira, causadas pela paralisia das pessoas diante do homem alojado na torre de um celular. O temido efeito dominó estava sendo engendrado. E se investidores correm riscos e o capital especulativo migra de lugar, é necessário tomar decisões draconianas. Ninguém sabe de quem partiu a ordem. Primeiro, a polícia afastou todos da torre, num raio de quatro quarteirões. Mau sinal. O homem, lá de cima, mantinha-se impassível. Minutos depois, surgiram três helicópteros no céu. Foram tomando forma e cor. Pela camuflagem e as insígnias em sua fuselagem, não deixavam dúvidas. Eram do Exército. Contornaram a torre e se aproximaram. O homem, então rompeu o silêncio e começou a se movimentar. Subiu até o final da torre e emitiu um som gutural e gesticulando as mãos, parecia fora de si. Como uma espécie de King Kong, foi cercado e covardemente alvejado pelas metralhadoras das aeronaves. Foi uma fuzilaria terrível. Em poucos minutos, seu corpo despencava, inerte, rumo ao chão, crivado de balas. Uma cena patética, se não fosse trágica. A polícia, com muitos reforços, reprimiu o avanço do povo em direção ao corpo. Uma equipe médica rapidamente recolheu o pobre homem, para autópsia. Aos poucos, a cidade retomou sua rotina. A economia mundial aquietou-se, as bolsas reagiram positivamente ao anúncio da morte do pobre homem. A identidade dele nunca foi revelada oficialmente, assim como o local de seu descanso eterno. A torre foi restaurada e voltou a funcionar normalmente, reforçada por muros e cerca eletrificada. Todos os anos, na data de aniversário do trágico acontecimento, flores são depositadas no local. Os políticos disputam verbas para a construção de um memorial para lembrar de como a cidade foi colocada no mapa da globalização. Mas
um mistério continua insolúvel. Ninguém até
hoje sabe os motivos que levaram aquele homem, conhecido por alguns como
o “véio”, a alojar-se no alto de uma torre de telefonia
celular. |