O
talibã às avessas
Recentemente
a mídia divulgou duas mortes de jovens senhoras vítimas
de colapsos após serem submetidas a tratamento estético,
lipoaspiração ou modelagem linfática, sei lá
qual termo usam corretamente. Morreram bestamente, tentando, provavelmente
modelar o corpo para o Carnaval ou para uma escapadinha na praia,
onde pneuzinhos, estrias e celulite não são bem vindas.
Outro caso que chamou atenção foi durante o grande
evento de moda realizado na capital paulista, o SPFW (São
Paulo Fashion Week), onde uma modelo magérrima desfilava
em pele e osso. A modelo lembrou-me os judeus de Auschwitz, o medonho
campo de concentração alemão, localizado na
Cracóvia (Polônia), durante a 2ª Guerra Mundial.
E levou-me à reflexão de que vivemos uma espécie
de ditadura. A ditadura da magreza.
Com a proximidade do carnaval, as musas de Momo exibiram-se diante
das câmeras, com contornos dignos de Hércules ou de
alguns brutamontes de Hollywood. São mulheres que tiram seus
maridos da piscina com um braço só, que possuem pernas
mais grossas que o lateral Roberto Carlos e ingerem grande quantidade
de proteína vendida por aí, em qualquer farmácia.
Aplicam litros e litros de silicone nos seios, bumbuns e coxas.
Malham sistematicamente, puxam ferro com desenvoltura, e nos remetem
aos sonhos mais sombrios, pois coitado daquele que se meter (ou
meter) com elas. Devem ser verdadeiras britadeiras, com molejos
hidráulicos inimagináveis para o padrão masculino.
Logo nós, machões, acostumados ao mando, e agora virando
espécie em extinção...
Ocorre que no Brasil, há uma pressão enorme por parte
da sociedade em geral, de que as mulheres devem estar sempre “gostosas”,
“apetitosas”. A mídia burguesa reforça
esses estereótipos, exibindo padrões de belezas “rotuladas”
em vários programas. A franquia Big Brother, é um
desses programas. A maioria dos componentes, com raríssimas
exceções, são todos “gatões”
e “gatonas” saradas, que como ratinhos de laboratório,
se digladiam ao vivo por semanas, concorrendo ao grande prêmio
em dinheiro (olha aí a ideologia burguesa: felicidade através
do dinheiro) ou para se transformar em capa da próxima Playboy
ou G-Magazine.
Essa busca frenética pelo corpo sarado (não confundir
isso com corpo saudável), faz com que adotemos em nossa terra,
uma espécie de fanatismo, como se um Talibã governasse
o Brasil, impondo suas regras às avessas. O original, oriundo
do Afeganistão obrigava as mulheres a cobrirem a forma de
seus corpos com uma vestimenta chamada Burka. Nada podia ser mostrado.As
mulheres enxergavam o mundo por uma redinha , que faz parte da vestimenta.
Unhas esmaltadas eram decepadas na hora. Adúlteras, apedrejadas
até a morte. Nenhuma mulher desacompanhada de uma figura
masculina podia percorrer vias públicas. As mulheres no mundo
árabe e muçulmano, sempre gozaram de certa liberdade,
mas em alguns países, as regras foram se radicalizando. No
Afeganistão elas se tornaram absurdamente rigorosas.
No Brasil, como disse, o Talibã às avessas, exige
das mulheres o corpo permanentemente à mostra. Vivemos em
um país tropical, é natural certo descomprometimento
com o pudor. Nossas índias andavam por aí seminuas.
Com o passar do tempo, esse culto ao corpo tornou-se peça
obrigatória em qualquer evento. E as clínicas estéticas
multiplicaram-se com grande rapidez. E quem acha que está
fora dos padrões, se esconde ou procura resolver o problema.
Nem sempre o resultado sai como esperado. O grande lance, a busca
pela eterna juventude, povoa a imaginação humana há
séculos. Mas a pressão da sociedade faz com que meninas
tornem-se esqueletos ambulantes, ou mastodontes super vitaminadas.
Esse é o preço a pagar pela felicidade?
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Paulão