1958: A TAÇA DO MUNDO É NOSSA. (SERÁ?)

Não gosto muito de escrever sobre futebol. Mas gosto do esporte bretão, assisto a vários jogos, sobretudo do Timão (agora em cruzada épica para voltar à Série A). Ocorre que o futebol é apenas um jogo, mas muitos atos irracionais são praticados em nome deste fanatismo, aliás, todos os fanatismos são perigosíssimos, sobretudo os de cunho religioso. Além da violência que cerca o futebol, ainda existe o braço do grande capital, que transforma tudo em mercadoria. Não há mais identificação de um jogador com a torcida de um clube, as cifras são milionárias, os jogadores são vendidos como sacas de café, e as relações de trabalho entre os clubes são marcadas pela ganância de empresários, pelo aceno de uma vida "tranqüila" na Europa, onde tudo é pago a peso de ouro. Nada contra o salário milionários das estrelas da bola. São pagos pela iniciativa privada? Beleza. O duro é quando constatamos que muitas prefeituras subsidiam clubes de futebol, investindo em pernas-de-pau e deixando de lado creches, saneamento básico, coleta de lixo, postos de saúde e escolas decentes para a população. No Brasil essas cenas são muito comuns. Além disso, o esporte serve como um anestésico social, é a política do pão e circo sendo repetida à exaustão. O sujeito se aliena, vai ao estádio, vocifera, arranja encrenca, e depois volta para o seu bairro miserável, onde a rua asfaltada, e o esgoto tratado ainda são sonhos distantes...

Um ato dentro de campo passa muitas vezes despercebido, mas revela o nível de mercantilização que tomou conta do esporte. As trocas de camisa. Troca-se de camisa com o adversário para cumprimenta-lo pela vitória ou respeita-lo na derrota. Existe um gesto nobre nesta cena, mas isso revela a promiscuidade das grandes empresas esportivas com a natureza e o meio-ambiente. Assim, mais e mais camisas são repostas e sabemos que nylon, poliéster (tecidos sintéticos), algodão e lã ( fibras naturais), não caem do céu. São produzidas por delicadas mãos infantis no Paquistão, Indonésia, Brasil... mas quem liga pra isso não é mesmo? Ao invés de trocar camisas (hoje troca-se até no intervalo, pois o time entra com uniforme zerinho no 2º tempo), a alternativa poderia ser uma troca de abraços entre os adversários, cumprimentos efusivos ao público e oferecer apenas uma lembrança. A natureza agradece.

Por fim, comento sobre o cinqüentenário da conquista da primeira Copa do Mundo pelo Brasil, feito realizado na Suécia em 1958. Como nasci oito anos após esse feito, tudo que sei são as memórias familiares e os registros históricos. Não testemunhei nada, mas ao ouvir e ler sobre 1958, fiquei à vontade para comentar algo, pois o passado não está morto, ele vive no presente. A conquista da Taça Jules Rimet foi considerado um feito memorável, sobretudo para um país carente de outras conquistas, como um Prêmio Nobel, por exemplo. Ter sido campeão do mundo foi uma espécie de transe mágico. O país foi colocado no mapa-múndi do futebol e da política, e corou os planos do presidente Juscelino Kubitscheck, cujo objetivo era modernizar o Brasil 50 anos em 5. Estava sendo dado o pontapé inicial para o endividamento externo e a transformação do país no paraíso das multinacionais. Os ídolos de 1958 estão passando por nova superexposição, obrigados a repetir inúmeras vezes as mesmas perguntas... Sobre eles, há pouco a dizer: eram homens de seu tempo, de um futebol ainda romântico que dava os primeiros passos rumo ao predomínio dos interesses dos grandes grupos privados e das emissoras de televisão. Tempos de Garrincha, que teria dito, ao final da partida decisiva contra a Suécia, que aquele era um campeonato muito vagabundo, pois não tinha nem 2º turno. As notícias chegavam via rádio e a televisão engatinhava. Não havia comunicação via-satélite. Na Europa, o brasileiro era visto como um animal exótico. Foram homens simples e com baixa instrução que levaram o país ao reconhecimento internacional. Iniciou-se um frenesi, que dura até hoje. Graças a 1958 ficamos marcados, indelevelmente, como o país do carnaval, do futebol e do samba.