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ENSAIO GERAL SOBRE A SUJEIRA

A sujeira está no ar. Aliás, sempre esteve. Desde os primórdios. A natureza sempre foi suja, sujo o mundo sempre foi. Com o surgimento do homem, a sujeira ganhou consciência. Passou, de fato, a existir em sua plenitude. E o homem, que é a medida de todas as coisas, passou a ser o mais sujo entre os animais.
Ela, a sujeira, por si só não é má. Os carniceiros, as moscas, toda sorte de vermes, destrói, corrói e liquida com a sujeira em pouco tempo. Ocorre que a sujeira humana extrapola os níveis da decomposição material, dos odores nauseabundos, da putrefação e das emissões de metano dos pântanos. Essa sujeira real, inerente a tudo que viceja , é compreensível. Com o homem criou-se a sujeira moral e seus inevitáveis subprodutos: a corrupção, o desleixo, etc. Estou sendo claro? Vou repetir: o homem criou a sujeira moral.
Tomemos como exemplo a aurora da humanidade. Após viver milhões de anos subordinado a natureza, o homem domina o fogo, constrói aldeias, promove a vida comunitária, se aloja à margem de grandes rios, domestica animais, inventa a agricultura. Quando tudo parecia perfeito, o passo seguinte é mal dado: Os clãs mais poderosos apropriam-se das melhores terras, cobiçam as mulheres de outros clãs. Nasce a sujeira, a podridão. O poder é imediatamente incorporado à vida cotidiana. Os deuses cara! Eles exigem tributos. Uns poucos administram o excedente alimentar. Julgam-se no direito de comandar. Nasce a propriedade privada. Comunidades indefesas são forçadas ao cativeiro. Surge o Estado com suas leis, impostos e imposições absurdas. Tudo muito nauseabundo. O restante amigo leitor, você já sabe...
O Brasil é um país jovem. Tem apenas 506 anos. Isso não impediu que a sujeira também nos contaminasse, infectando a todos, como uma febre pútrida. Os índios faziam sujeiras. Eram mais simples, mas igualmente sujas. Um monte de fezes jogadas dentro de um rio, ou aliviadas em uma moitinha. Algumas árvores destruídas por ano. Meia dúzia de araras, macacos e antas, mortos, para saciarem a fome.
Guerras? Apenas por território e fontes de alimento. Praticavam a antropofagia ritual. Nada que causasse muito impacto, afinal, nossos silvícolas eram tão atrasados que não dispunham dos meios para destruir a natureza de maneira devastadora.
Tudo isso mudou com a chegada do homem branco. Eles vieram do mar. Trouxeram coisas que os índios desconheciam. Chegaram com novos deuses e um tara impressionante. Meia dúzia de machos, com a missão de povoar o imenso território. Filhos bastardos foram feitos em profusão. Se não havia consentimento das índias, o estupro era inevitável. O calor dos trópicos, a distância da metrópole, o manto do anonimato e da impunidade. Tudo sob os olhos de Deus. Combinação perfeita para as sujeiras mais pérfidas...
Para completar o caldeirão de maldades, eles arrancaram os nativos da África, que trazidos para o Novo Mundo, estavam sujeitos ao trabalho árduo e ao peso da chibata. Alguém disse: “Não há escravidão sem devassidão”. Nas Casas-Grandes, nas alcovas sufocantes, a negra ou a mulata teve que satisfazer o apetite sexual do senhor branco. Gilberto Freire e seu Casa Grande e Senzala retrata muito bem esse tópico. Muita sujeira.
O senso comum credita nosso fracasso aos portugueses. Erro histórico grave. É certo que eles eram limitados intelectualmente para compreenderem o impacto de sua descoberta, mas é preciso creditar a eles, o mérito de terem colonizado uma terra indômita e selvagem. O que nos tornou sujos foi a estrutura muito bem arquitetada pelos “nativos”. Isso mesmo. Nós mesmos, brasileiros, criamos essa situação suja e não conseguimos sair dela.
Desenvolvemos técnicas para tornar uma terra maravilhosa, em um lugar imundo. Uma elite voraz se formou, apropriou-se das melhores terras, criou leis, a polícia, tudo em benefício próprio. Sufocou, afastou e eliminou os pobres que ousavam criticar. E o pior: na sua ânsia de individualismo, essa minoria criou a vitória do “eu” sobre o “nosso”. Subverteram a máxima do Sr. Spock que dizia: “As necessidades de muitos, superam as necessidades de poucos ou de um só”. Aqui, no Brasil ficou assim: “quem vier depois que se arranje”.
A sujeira está no ar. E com ela nasceu a corrupção política. Compra de cargos, venda de votos, falsificações eleitorais, corrupção administrativa, populismo, quarteladas, abusos de poder, privatizações sem critério, mensalões, dizimões, dólares na cueca, escuta telefônica, chantagem, morte por encomenda, devastação ambiental e toda sorte de sujeiras.
É claro que nos resta um consolo: somos o país do futuro e o único (por enquanto) a ostentar cinco estrelas no peito. Somos pentacampeões mano! Isso não é pra qualquer um não.
Salve a sujeira! Viva a podridão!
Ela está no ar e avisa: não tem pressa em se dissipar.