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- Crônicas do Paulão
O
show do Data-Show
Desde a imagem pioneira de Joseph Niépce, em 1825, considerada
a primeira fotografia da história, passando por Daguerre, a câmera
“caixão” e os filmes em rolos, sem contar com o pioneirismo
dos irmãos Lumière, que exibiram o primeiro filme em 28
de dezembro de 1895, no Grand Café Boulevard des Capucines, em
Paris, as imagens sempre exerceram um forte fascínio na humanidade.
Há veracidade na frase: “uma imagem vale por mil palavras”,
pois o século XX, assistiu a essa revolução pictórica
, com o cinema mudo, depois falado, o CinemaScope, os filmes coloridos,
passando pela fotografia digital e as imagens em alta resolução,
onde ocorre uma proliferação de megapixels, difícil
de entender e controlar.
Pois bem, vivemos a era das imagens. E seu inevitável subproduto:
a banalização. Hoje uma fotografia tornou-se tão
corriqueira, pode ser revelada em instantes, deletada ou alterada para
diversos fins. Algo que soa muito assustador e ao mesmo tempo reconfortante,
pois temos acesso a verdadeiras obras-primas instantâneas e qualquer
um, com pouco conhecimento técnico sobre fotos ou filmagens,
pode ser alçado à condição de “gênio”
e ter os tão sonhados, quinze minutos de fama, como diria Andy
Warhol (1928-1987).
Ainda temos a televisão, que revolucionou costumes, ditou e continua
ditando regras, conceitos e comportamentos. Incluo aí, a Internet,
o Orkut, MSN e outros afins. Na era da imagem, a palavra escrita não
foi abandonada, mas relegada a um segundo plano. A leitura tornou-se
monótona, entediante, sobretudo entre os jovens. Basta ver o
teor e a qualidade das pesquisas escolares. É um tal de colar
textos inteiros, extraídos da Net. Coisas que apenas os devotos
de “São Google” entendem. Amém.
Os recursos audiovisuais, como são conhecidos, existem há
tempos, e são úteis para a educação. No
início eram os slides, fotos coloridas que se movimentavam em
uma máquina giratória, sob um facho de luz. Não
eram empregados regularmente, mas pela novidade, atraíam um bocado
de gente. Depois veio o vídeo-cassete, hoje substituído
pelo DVD, que está sendo ultrapassado por outra tecnologia, que
será ultrapassado por outra e mais outra...
Não estou negando a utilidade de aulas virtuais, montadas em
Power Point. Alerto para a dependência cada vez maior de profissionais
por esses recursos. Seria uma nova espécie de compulsão?
Nesta esfera das imagens fugazes, entra em cena o palestrante do momento.
Pode ser numa conferência sobre meio-ambiente, semana do café
ou simpósio sobre o sumiço de zebras em alguma parte do
Quênia. Não importa. Não me refiro a uma pessoa
de carne e osso, mas sim dele, o insuperável e insubstituível
Data-Show.
Um aparelho moderno, fruto da mais avançada tecnologia japonesa,
britânica ou estadunidense. Pode ser Sharp, Epson, ou se preferir
o confiável Sony, o papa dos Data-Shows. (Não estou fazendo
propaganda, não me confunda com outra pessoa).
Sem ele, os pseudo-palestrantes são apenas arremedos de apresentadores.
Suas arguições orais não surtem efeito imediato
e provavelmente, a palestra logo se torna desinteressante.
Geralmente essas palestras são padronizadas, sendo o convidado,
um mero reprodutor do que vê nas imagens exibidas, ou lê
nos textos curtos que aparecem no telão. A plateia, devidamente
doutrinada e obcecada, obedece bovinamente, sorvendo com vigor as imagens.
Sem ele, hoje, não haveria interatividade entre palestrante e
público.
Agora, o mais engraçado é quando essas parafernálias
eletrônicas entram em pane, recusando-se a obedecer seus mestres.
É como se elas tivessem vontade própria. Legiões
de “entendidos” surgem em torno do aparelho, alçado
a condição de divindade irada por não mostrar seus
dotes. E desprovido de seu instrumento inseparável, o palestrante
exibe pouca afinidade com a multidão, mostrando-se muitas vezes,
completamente perdido.
Já presenciei essas cenas inúmeras vezes. Por isso, se
chamado para falar em público, fico cabreiro e sempre elaboro
algo escrito, na velha e boa folha de almaço, estrategicamente
guardada em um bolso, como medida de segurança.
Nada substitui a nossa HD natural, a cachola, o cérebro. Ele
também falha, trava, enlouquece, mas é muito mais confiável
que qualquer placa de silício ou memória RAM de última
geração.
Em tempo: adoro imagens, sou fã de fotografia e de cinema. Utilizo
recursos audiovisuais de forma controlada, atendendo às recomendações
do bom senso.
E-mail: Paulão