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Os fatos relatados a seguir são pura obra ficcional. Qualquer semelhança com a realidade (não) será mera coincidência.

Por Paulo "Paulão" Fernando Siqueira

Nota do editor: depois dele, só o Zidane. Ou o Rovaldo, um brasileiro.

Na foto, Paulão recebendo uma medalha pelo prestimoso trabalho na recuperação dos jovens envolvidos com drogas, como Perreira, Gagallo, Ricardo Peixeira, entre outras drogas

ROVALDO, O ASSOMBRO

Rovaldo Manoel da Silva nasceu no interior do Estado de Mato Grosso, na cidade de Xerém do Norte, quase na divisa com o Pará. Lugar de poeira vermelha, conflitos agrários, matadores de aluguel, onde a vida vale menos que um prato de comida, quando muito uma cesta básica. Essa história seria apenas uma história qualquer, de outro brasileirinho miserável, se não fosse a história de Rovaldo, o maior craque já surgido no Brasil, depois de Pelé e Ronaldo, o fenômeno, no tempo que estes reinaram absolutos, o primeiro na Suécia (1958) e no México (1970), o segundo na Coréia e Japão (2002).

Foi por causa do Fenômeno que Rovaldo passou a se chamar o Assombro. Depois da pífia presença do craque na Copa do Mundo da Alemanha em 2006, onde exibiu obesa silhueta, o menino pobre e famélico tomou uma decisão: seria jogador de futebol e um dia, vingaria o Brasil.

Estava sendo rascunhada, ali, a trajetória daquele que o mundo chamaria de o Assombro, pois, dentro das quatro linhas, ele deixava todos estupefatos, atônitos, apavorados. Era um verdadeiro Assombro.

Rovaldo possuía mais dez irmãos. Alguns, frutos da união de seu pai, um pobre diabo, com várias mulheres. Sabe como é, né? Diversão de pobre é sexo, e do jeito menos complicado, ou seja: fazendo filho mesmo.

Desde cedo, Rovaldo, por ser miúdo (notadamente desnutrido), passou a se chamar Rovaldinho. Como a aptidão pelos estudos era pouca, faltava tempo para a aritmética e sobrava para a bola. Teve até um jogador francês, que em 2006, antes do jogo decisivo contra o Brasil, pela Copa da Alemanha, havia declarado que a nossa habilidade com a bola, vinha do fato de nossas crianças jogarem futebol das oito da manhã, às cinco da tarde, negligenciando os estudos. Um exagero! A maioria das crianças parava de “bater uma bolinha” por volta das quatro e meia da tarde.

Rovaldinho não fugia à regra. E jogava bem, apesar da fraqueza. Com 12 anos fez um teste no Grêmio Xerensense e passou. Jogou um ano no juvenil e o salário era pago em lanches, que ele devorava avidamente por onde quer que jogasse, geralmente pelas fazendas e campos devastados da região. Essa experiência de jogar no meio do mato (ou no que restava dele), seria um fato marcante em sua vida, e o faria tomar uma decisão radical, quando ele se tornasse o Assombro.

E o sucesso chegou. Tão rápido quanto aqueles clipes da MTV, onde tudo se movimenta num frenesi absurdo. Do Grêmio Xerensense, para o Operário, de lá para o Goiás, de lá para o Flamengo, depois a seleção, a primeira Copa do Mundo (com apenas 17 anos, como Pelé e o Fenômeno). Finalmente, o Milan e o Real Madri. Lá nasceu o Assombro. O nome Rovaldinho foi aposentado. Com seus gols mágicos, ajudou o Brasil a colocar a tão sonhada sexta estrela no peito, em uma final eletrizante contra a França de Zinedine Zidane Júnior. Rovaldo, o Assombro, marcou os quatro gols da vitória, vingando todos os gols que a França havia feito na seleção nas copas de 1998 e 2006. Esse feito só ocorreu em 2022, na Copa do Mundo realizada no Laos, Vietnam e Camboja, onde finalmente o trauma da eliminação na Alemanha em 2006 foi definitivamente sepultado.

Rovaldo era agora o Assombro. Ninguém sabe quem botou-lhe o apelido. Ele surgiu como mágica e foi rapidamente incorporado pelo povo. A mídia e as grandes multinacionais esportivas alimentavam esse combustível da ganância, inflando o homem, transformando-o em mito, lenda, algo sobrenatural. E convenhamos, Assombro era um nome perfeito. Que Rovaldo era mesmo craque, ninguém duvidava. Mas ele foi catapultado à condição de sobre-humano, infalível. E nesse mundo de homens-deuses, qualquer falha revela-se mortal. Tinha acontecido com a geração de 2006. Provavelmente perseguia a geração do Assombro.

Mas no momento ele travava outra guerra: queria apagar seu passado miserável. Recuperou os dentes do pai que os havia perdido em uma briga de bar. Abrigou sua mãe biológica e as madrastas, tirou irmãos da cadeia, comprou fazenda para eles, investiu em grupos de pagode, comprou apartamentos de luxo com cobertura, nas áreas mais caras do Rio de Janeiro e São Paulo, virou garoto-propaganda de grandes bancos, campanhas humanitárias. Tudo pago com grosso cachê.

Freqüentava o jet-set tupiniquim. Namorava as mais cobiçadas modelos. Casou-se com várias delas, deu festas extravagantes. O dinheiro parecia não ter fim, brotava feito água.

Era badalado e afagado pela mídia, sobretudo a poderosa Rede Planeta, sucessora da extinta Rede Globo. Era amigo pessoal no maior narrador na emissora: Galvião Malo Bueno, cujo refrão conhecido em todo o território nacional era:

- É o Assombro!! Vai Rovaldo!

Além da mídia, a poderosa Nike o bancava, dos pés à cabeça. Era o craque que sempre deveria estar escalado, independentemente de sua condição física ou emocional.

Por mais que se esforçava, o Assombro não conseguia se desvencilhar do passado cheio de carências. Uma fome atroz o perseguia, fruto das privações da infância. Era uma fome real e ao mesmo tempo psicológica, que o acompanhava diuturnamente. Essa situação fazia com que ele travasse, sem sucesso, uma luta feroz contra a balança.

Mesmo assim ele esbanjava confiança, apesar de sua silhueta não deixar mentir: O Assombro estava gordo. Mas o técnico da seleção, Alberto Carlos Barreira, um notório teimoso, ao lado de seu mais experiente auxiliar, o Mário Zégallo, achava que ele estava bem, e o convocava sempre.

Foram quatro anos de preparação para a na Copa seguinte, em 2026, na Polônia.

Mas o Assombro já não era o mesmo. Mesmo assim, foi convocado e escalado. Tinha recordes a quebrar. Queria por que queria, marcar mais gols que o Fenômeno em Copas do Mundo (fato que nunca conseguiu). E por falar em Ronaldo, o Fenômeno, ele se tornara, àquela altura, o comentarista da Rede Planeta, no fatídico jogo realizado na cidade portuária de Gdansk, quando a seleção perdeu de 1x0 para o Azerbaijão, causando grande revolta na torcida brasileira.

Esse duro golpe fez o Assombro tomar a decisão que mudaria sua vida. Largou tudo. Lembrou-se de quando jogava por lanches, nas fazendas e matas de Xerém do Norte. Resolveu tomar uma atitude inusitada: Fez promessa de jogar em todos os campos do interior do Brasil. Começando pela Amazônia devastada. Onde houvesse um campo, por mais precário que fosse, lá estaria ele, jogando e fazendo gols e não se importando com luxo e ostentação.

E assim foi. No início, a mídia adorou, achando que era mais uma das excentricidades do craque. Com o tempo, como ele não demovia a idéia de continuar jogando em tudo que é campinho, a imprensa o abandonou.

O Assombro, agora barbudo, jogava bola em tudo que era canto. À noite, vestia um brim azul e fazia pregações. Alimentava-se de gafanhotos e mel silvestre ou vivia de caridade. Por onde passava, reformava campinhos. Alguns diziam que era a reencarnação de Pelé, outros de Garrincha. E no país do futebol, a lista de reencarnações era grande.

Por fim, sumiu do noticiário. Foi deletado pelo Grande Irmão. Nunca mais se ouviu falar dele. Tornou-se lenda. Uns dizem que foi morto, outros que desapareceu em uma terrível tempestade. Outros dizem que de tempos em tempos, ele aparece em algum grotão de nosso país, disposto a jogar bola feito um demônio, a gingar feito saracura e a fazer seus gols implacáveis, desaparecendo em seguida, para surgir em outro campinho.

“Onde houver 22 reunidos em torno de uma bola, eu estarei entre eles”. Era uma frase que lhe foi atribuída, quando visto pela última vez.

Talvez ele seja mesmo apenas um Assombro.