
1985: Nascia a Nova República
No dia quinze
de março de 1985, há 25 anos, Tancredo Neves, tradicional
político mineiro de São João Del Rey era eleito
de forma indireta pelo Congresso Nacional, o novo presidente do
Brasil (480 votos a favor, 180 contra). O país parecia emergir
de uma imensa ressaca, iniciada em 31 de Março de 1964, quando
começou a ditadura civil e militar em nossa terra, cujas
consequências até hoje sentimos na pele.
Naquele verão de 1985, tudo prometia ser novo. Apesar do
povo não ter sentido o gostinho do voto direto (a emenda
Dante de Oliveira que previa eleições diretas, havia
sido vetada em abril de 1984), o clima era de euforia geral, pois
queríamos a tão propalada liberdade. Ela veio, de
forma indireta e com Tancredo Neves, um conservador de mão
cheia, mas veio. E de sobra ainda assistimos a derrota de Paulo
Maluf, que era o candidato dos milicos.
Os militares saíram pela porta dos fundos. Deixaram o país
em frangalhos. Inflação galopante, desemprego em alta
e PIB em queda. E o último general presidente, o sempre mal
humorado João Figueiredo, ainda disse em entrevista na extinta
Rede Manchete a frase marcante de seu governo: “Me esqueçam”.
Saíram quase todos ilesos, deixando um monte de esqueletos
guardados no armário, que revelaram mais tarde, um universo
de torturas, perseguições, bajulações
e falcatruas sem fim. Muitos arquivos dessa época continuam
secretos, à espera de um milagre.
Mas o fato é que o Brasil ingressava em outra era. Foi o
caminho que o país escolheu para a redemocratização.
Nossa esquerda, ainda na ilegalidade, estava dividida em inúmeras
ideologias. O PT tinha pouca representatividade no Congresso e no
cenário nacional. Lula era apenas o “herói”
dos metalúrgicos, sem a popularidade estratosférica
dos dias de hoje.
Então o caminho ficou fácil. Tancredo ganhou mas não
levou. Formou-se um governo com novos ministérios. Gente
como Almir Pazianoto, Francisco Dornelles, Fernando Lyra, Antonio
Carlos Magalhaes, Fernando Henrique Cardoso, General Leônidas
Pires Gonçalves. José Serra, atual governador de São
Paulo, ficou de fora das listas a pedido de Franco Montoro, então
mandatário paulista. A não inclusão de Serra
permanece um mistério insondável, pois como Secretário
de Planejamento de São Paulo e presidente a Copag (Comissão
do plano de ação do governo), ele parecia nome certo
para “ser imortalizado pela História”.
Eleito, Tancredo tratou de viajar para o estrangeiro. Católico
devoto foi beijar a mão do Papa João Paulo II e do
presidente Ronald Reagan dos EUA, onde ouviu piadinhas do tipo:
“ Nossa, você aparenta ser mais velho que eu”
Mas no final, a imagem do Brasil estava mudando.
Em 1985 organizamos o Rock in Rio, um mega festival, repleto de
celebridades da música pop internacional. A praga do momento
era o quarteto porto-riquenho conhecido como Menudos. Josef Mengele
o médico nazista da 2ª Guerra Mundial tinha sua ossada
achada por aqui, o CD chamava-se Compact Disc, aparelhos de DVD
engatinhavam, com o soturno nome de Laser Disc. O videocassete pesava
quilos e era inacessível para os pobres mortais. Não
havia celular ou internet e o maior lançamento da Ford era
o Scort XR3 conversível, um carro de 70 milhões de
cruzeiros. Os clubes das cidades do interior (como a minha) organizavam
bons bailes e a Banda do Brejo era sucesso de público por
onde se exibia. A AIDS era sentença de morte e o silicone
passava longe do corpo das mulheres.
O clima festivo foi melado com a internação repentina
de Tancredo, operado às pressas em Brasília. Problemas
no divertículo? Câncer? Ferimento de bala? José
Sarney assumiu a presidência. A agonia prolongou-se até
o anúncio de sua morte em 21 de abril daquele memorável
ano. Ano que iniciamos nossa redemocratização e que
comemoramos o fato de vivermos em um país mais justo, com
liberdade e sem aquela censura horrorosa.
Passados 25 anos, o Brasil experimenta um raro momento de estabilidade
em sua histórica republicana, sem quarteladas ou ditadores
populistas. As instituições fortaleceram-se. A sociedade
civil ganhou dinamismo e voz, as escolas públicas democratizaram-se
e a ameaça da fome parece estar afastada. Temos outras carências,
mas só passa fome no Brasil de hoje, quem é muito
ignorante.
Apesar dos avanços, uma chaga ainda não se fechou.
A educação brasileira ainda patina, ostentando baixos
índices de desempenho nos indicadores nacionais e internacionais.
O salário dos professores é baixo, as políticas
educacionais esbarram na burocracia. O nível de politização
das pessoas é irrisório. A produção
científica é uma lástima. O prêmio Nobel
parece um sonho distante. A MPB perdeu espaço para o sertanejo
universitário. Mulheres “bombadas” são
mais fortes que seus frágeis maridos. A academia de ginástica
substituiu a luta social. A violência tomou proporções
alarmantes...
Mas é melhor tentarmos o acerto na liberdade de decidir,
do que pela imposição, a censura e o medo. A ditadura
legou-nos uma herança maldita. Vamos aos poucos, exorcizando
nossos demônios. O Brasil mudou. Um operário, gente
do povo foi eleito Presidente da República. O acesso às
universidades ampliou-se significativamente. Há mais pesquisa
acadêmica e científica. Isso significa mais gente instruída
e teoricamente, mais consciente de seus deveres como cidadão.
O passo adiante deverá ser a retomada no senso crítico,
do espírito da camaradagem e das lutas sociais, para a construção
de um Brasil justo e que trate seus filhos com equivalência.
É um desafio imenso, mas possível.
Paulo
Fernando Siqueira, o Paulão, é professor de História.