O
PODER DAS VUVUZELAS
A Copa 2010
acabou. A Espanha ergueu o cobiçado troféu em Johanesburgo
e entrou para o seleto grupo dos campeões mundiais. Festa
em Madri. Alívio momentâneo para o país dividido
em ideologias e costumes tão diversos, e assolado pela crise
mundial, com 20% da PEA desempregada. Num momento tão delicado,
a conquista da taça FIFA chega como uma lufada fresca em
uma noite quente de verão.
Mas os maiores elogios vão para os anfitriões, os
sul-africanos. Contra todas as incertezas que a mídia insistia
em semear, eles conseguiram organizar uma Copa do Mundo impecável,
com estádios lindos e superlotados. Mostraram ao planeta,
que o continente não é uma comédia de erros.
Durante um mês, a humanidade, que surgiu na África,
para lá voltou. Uma viagem antropológica, cultural,
gastronômica. Uma volta cheia de significados. Aos que olhavam
com desconfiança e preconceito, o trabalho silencioso dos
operários e do governo. Claro que ocorreram falhas, afinal
somos humanos, mas a “Mama África” acolheu a
todos, de braços abertos.
Com a força de milhares de vuvuzelas, soprando incessantemente,
assistimos um campeonato brilhante fora e medíocre dentro
de campo. Poucos gols, erros grosseiros de arbitragem, nenhum craque
excepcional, nenhum esquema tático inovador. De novidade,
a bola Jabulani, misteriosa como os orixás e entidades africanas,
com suas curvas mirabolantes e seus efeitos sensacionais. Os anfitriões,
os “Bafana Bafana”, foram logo eliminados, mas o calor
não arrefeceu. Seleções tradicionais se despediram
na primeira fase (Itália e França). Um surpreendente
Uruguai, resgatou o espírito de Varelas e Ghiggias, e voltou
a ficar entre os grandes. Uma Alemanha desenvolta e nada mecânica,
quase chegou lá, mas os deuses do futebol estavam com “La
Fúria”.
O Brasil parou na Holanda. Foi uma seleção insípida,
incolor e inodora. Jogou mal a maioria dos jogos, ainda sim levou
alegria para o povo brasileiro, que se diverte nesses momentos.
A derrota e a consequente eliminação pareciam desenhadas.
Quando se tornaram realidade, não foram frustrantes. O técnico
Dunga, considerado moralizador e irascível, levou toda culpa,
embora aos se indispor com a Rede Globo, tenha feito algo interessante.
Foi um dos poucos em que a Vênus Platinada não botou
coleira. Então, um salve para Dunga.
E ainda tivemos o vilão da vez. Em 2006, foi Roberto Carlos
ajeitando o meião na derrota fatídica para a França.
Desta vez, Lord Vader foi Felipe Melo, com seus coices e voadoras,
dignos de um Vale Tudo.
Por ser na África, esperava-se que algum bicho da savana
fosse deixar seu recado, quem sabe uma zebra, um antílope,
um gnu. A surpresa veio de um aquário alemão. O polvo
Paul, o cefalópode mediúnico acertou todos os resultados,
quando colocado à prova, derrubando as casas de apostas pelo
mundo todo.
A Copa fecha com um balanço econômico muito lucrativo.
A FIFA alega ter faturado mais na África do que na Copa passada,
realizada na Alemanha. Largo sorriso nas bocas dos investidores.
Só de Jabulanis, a Adidas vendeu 14 milhões de unidades.
Tudo são negócios. È o planeta bola, é
o planeta dinheiro.
Espero que a Copa da África do Sul continue a render movimentação
financeira ao país, aumentando a chegada de turistas e satisfazendo
as necessidades e anseios de sua população. Nada mal,
para o país que se libertou do jugo do Apartheid e que tem
em Nelson Mandela, a personificação do carisma e a
afirmação de que nada se consegue sem luta.
A próxima Copa do Mundo será aqui, em 2014. Muito
precisa ser feito. O custo beira os R$ 40 bilhões. São
necessárias novas arenas e reformas urgentes nas já
existentes. Melhoria nos aeroportos, transporte terrestre e um montão
de coisas. Desafios para o próximo presidente.: Dilma ou
Serra? Daremos conta do recado? Na dúvida, consultemos o
cefalópode mediúnico, nosso secretário para
assuntos aleatórios, antes que algum investidor quebrado
resolva mandar o pobre bicho pra panela.
E-mail:
Paulão