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O PICOLÉ TÁ DERRETENDO EM COPENHAGUE
Paulão Siqueira



Começou a Cúpula do Clima em Copenhague, a bela capital da Dinamarca. Líderes mundiais vão discutir o futuro do planeta Terra e a própria existência da raça humana. Estão chegando, em potentes aviões comerciais ou no caso de Obama, de Air Force One, o avião dos aviões. Lá, se locomoverão pela cidade em suntuosas limusines e vão se hospedar em hotéis cinco estrelas. Tudo em nome da ecologia, tudo em nome do meio ambiente, tudo em nome da redução do dióxido de carbono da atmosfera. Uma boa causa, um champanhe gelado e uma call girl à disposição. Isso sim que é vida. É bom ser rei.
A discussão número um, e mãe de todos os debates é a redução dos gases estufa. Todos os dados apontam para um aumento médio da temperatura da Terra que se acentuou a partir da década de 1970. Os últimos dez anos foram os mais quentes do planeta. A parte visível da catástrofe é o derretimento da calota polar e o medo de grandes inundações costeiras, além de chuvas desproporcionais em uma área e grandes secas em outras. Safras agrícolas perdidas, dinheiro indo pro ralo.
A proposta da Conferência de Copenhague (COP-15) é estipular uma espécie de cota de redução de CO2 na atmosfera. E aí que o bicho pega, pois os países mais pobres teriam que reduzir percentuais próximos daqueles estipulados pelos mais ricos, que são justamente os maiores poluidores globais. Ninguém quer abrir mão de reduzir custos ou correr o risco de estagnar suas economias nacionais. A cúpula corre o risco de fracassar.
Além do mais, exigir do Brasil, Índia, China e outros “emergentes”, reduções de CO2 próximas dos níveis dos Estados Unidos, União Europeia e Japão é uma tremenda injustiça, pois esses países não inventaram o capitalismo. Eles são vítimas do processo.
Quem começou a poluir o mundo de maneira preocupante, foi a Inglaterra, no final do século XVIII, na chamada 1ª Revolução Industrial. Depois, novos países entraram no seleto clube, o capitalismo metamorfoseou-se, aliando-se aos grandes bancos, criando os grandes conglomerados, os trustes e cartéis e as imensas holdings. As chaminés vitaminadas começaram a despejar centenas e centenas de toneladas de fumaça venenosa, os rios viraram uma latrina fétida, as cidades sufocadas pelo concreto e o homem, no meio disso, virando lobo do próprio homem. Revólver à mão, violência, corrupção...
Depois da 2ª Guerra Mundial, a terra do Tio Sam, com seu apetite voraz, elegeu o petróleo como primadona dos combustíveis. O “american way of life” foi exportado para o restante do planeta. Não fomos nós que inventamos a sociedade de consumo, o deus mercado, a ganância das bolsas de valores e todos os vícios do capitalismo. Nós apenas copiamos o que vocês quiseram que copiássemos.
Agora, com o planeta realmente em perigo, os ricos querem dividir a conta. Querem que os pobres façam poupança. Que preservem tudo. Que façam sacrifícios incomensuráveis em nome do meio ambiente. E apelam com imagens de ursinhos polares morrendo afogados no Ártico. Estados Unidos e Rússia, recentemente assinaram acordos para exploração das grandes reservas minerais que o Ártico está revelando com o derretimento da grossa capa de gelo envolve as regiões próximas ao Pólo Norte. Eles ficam com as riquezas, e nós cuidando dos ursinhos.
O sistema em sua fase atual, de mundialização do capital não conhece limites. O lucro das grandes corporações deve ser preservado a todo custo. O dinheiro está acima de tudo. O resto é balela, conversa fiada. Os líderes mundiais vão apelar para a velha retórica da conscientização, da ponderação e uso do bom senso. Grupos mais radicais farão protestos acalorados. Mas fora isso, todos nos bastidores, com calculadoras à mão, estarão contabilizando futuros prejuízos, ou eventuais lucros do caos ambiental.
Enquanto isso, distante dali, investidores de Wall Street, empresários de grandes corporações estão apenas pensando no lucro que terão neste ano. Ano gordo de Papai Noel. Marry Christmas! Row! Row! Row!
Não sou Nostradamus ou daqueles caras que adinham coisas, mas sei te dizer qual será o final desta novela. Não acontecerá nada. Nossos “líderes” vão debater, debater, debater, mas nada de conclusivo será acordado no COP-15. Motivo? O sistema capitalista não admite perdas. Os valores monetários precisam ser preservados. As petroleiras não podem admitir queda na produção de combustíveis fósseis, as montadoras não querem sacrificar milhões ou bilhões de dólares em novos projetos, em tecnologias mais limpas, em carros elétricos, por exemplo. Tudo pode ficar para depois. Só nos resta torcer para que nada de tão grave aconteça. Enquanto isso podemos adotar um ursinho polar desgarrado, ou plantar uma árvore na porta de casa, aguardando sob o Sol escaldante, o derretimento do picolé.