Um
país pela metade Abri o jornal Folha de São Paulo, edição de sábado, 29/11/08 e li, estupefato, uma notícia no caderno Cotidiano: "Kassab asfalta 'meia rua' para desfile de F1". Para quem não leu o jornal ou ignorou a notícia, aqui vai um resumo: Prefeitura de São Paulo recuperou uma parte da Avenida Pedro Álvares Cabral, para exibição de carros da multinacional francesa Renault. O resto da avenida, o sentido oposto da via pública continuará esburacado, e como sabemos como são nossos políticos, por tempo indeterminado. Fiquei indignado com isso. Como podemos confiar nesses administradores? O custo da "gracinha"? Cerca de R$ 435.000,00, (Quatrocentos e trinta e cinco mil reais) para que Nelsinho Piquet e outros convidados possam desfrutar de um asfalto cinza-escuro novinho, um verdadeiro tapete (nas palavras do próprio jornal). Os cidadãos como eu ou você, cumpridores de nossos deveres, ficamos com o resto da pista, esburacada, mal sinalizada e tudo mais. É mais uma demonstração de como funciona o "espírito do brasileiro". Gostamos de fazer média com os grandes do mundo. No caso, com a Renault francesa. Justo a França, uma potência de meia-pataca, um apêndice dos Estados Unidos. Os franceses nunca foram de nada. Na Segunda Guerra Mundial, se renderam vergonhosamente para os alemães, e muitos deles colaboraram com o inimigo durante os quatro longos anos de ocupação. Depois, no processo de descolonização na Ásia, a França foi humilhada pela Indochina, mais tarde desmembrada em Laos, Vietnã e Camboja. Isso sem contar o que os compatriotas de Maurice Chevalier fizeram na Argélia. Em todos os lugares, onde eles se sentiam "donos", levaram tinta. Existe até uma lei ridícula no país, que não permite o uso de termos em língua estrangeira, sobretudo inglês. Tudo tem que ser traduzido literalmente para a língua pátria, o francês, que deverá desaparecer como idioma em breve. Aliás, na França hoje, metade da população já é de origem árabe. É só uma questão de tempo. Mas aqui, na terra de Pindorama, tudo é diferente. Eles encontram aduladores de toda espécie. Basta acenar com umas notinhas de euro, dólares, libras esterlinas ou então anunciar a montagem de uma fábrica e a garantia de alguns empreguinhos. Pronto, entregamos tudo. Terreno com infra-estrutura, água, luz e esgoto, isenção de impostos por vários anos. Foi o que aconteceu em Betim, Minas Gerais, quando a FIAT italiana se instalou por lá, nos anos setenta. As vantagens eram tantas, que nem os italianos acreditaram. E ainda compraram a Fábrica Nacional de Motores, criada por Getúlio Vargas e que produzia o saudoso caminhão "Fenemê", uma verdadeira relíquia nacional. Tudo a preço de banana. Aliás, foi o mineiro J.K., aquele que virou presidente, lá pelos anos 50, que deu o pontapé inicial para transformar o Brasil no paraíso das multinacionais.
Somos o país feito pela metade mesmo. Asfaltamos uma parte da
rua, apenas para agradar os franceses, largando o resto para depois. Pela metade. Já pensou se levássemos ao pé da letra essa mania nacional? Transformando isso em rotina de nossas vidas? Um beijo apaixonado apenas pela metade, um amor de meia porção? Um meio amor de mãe? Final de campeonato apenas no primeiro tempo. Seria ridículo, não? Mas quando se trata da coisa pública, aí sim, ficamos com a consciência livre, pois o bem público não tem dono, não é mesmo? Pode ser emprestado, alugado, apropriado indevidamente e deixando por aí, pela metade. E você amigo(a)? É completo ou pela metade? |