voltar - Crônicas do Paulão


MASSACRE NO RIO DE JANEIRO

Não poderia ser pior. O fato ocupou todo espaço da mídia nacional e internacional. Um jovem, aparentemente perturbado, entrou em uma escola pública no Rio de Janeiro, munido de dois revólveres e efetuou uma série de disparos, matando 12 jovens e ferindo outros. Alguns em estado grave. Mirava na cabeça e no tórax. Tiros fatais. Tiros em Columbine? Não! Em Realengo, zona oeste da cidade maravilhosa. Era só o que faltava. A gota d´água em nossa paciência de Jó. O desfecho não foi ainda mais trágico, graças a um policial que no cumprimento do dever, alvejou a vítima que suicidou-se em seguida, com um tiro na boca. Ato final de mais uma tragédia tupiniquim?
Nós brasileiros, estamos acostumados à violência cotidiana: Uns contra os outros, no trânsito, com a natureza. Convivemos também com a violência política. Aqueles que são eleitos e depois nos abandonam ao léu. Mas atos como deste jovem, assassinatos em séries, era coisa de americano, de paranóicos de guerra, dos rejeitados pelo american way of life, dos desclassificados do capitalismo mundial. Agora entramos para o clube dos assassinatos coletivos, praticados contra crianças e jovens inocentes, dentro de escolas. É o Brasil entrando para o Primeiro Mundo, pelo último vagão.
Esse tipo de crime não é (ou não era?) muito comum por aqui, pois geralmente é oriundo de problemas crônicos de relacionamento ou rejeição. Nos EUA é muito comum aquele que não é popular ou “the best”, ser rejeitado, vítima de bullying e outras perseguições. Isso sem falar dos neuróticos de guerra, ex-marines, veteranos do Vietnã, que piram e saem matando pessoas. Por aqui, os jovens carentes e os marginais de maneira geral, possuem bons relacionamentos, sempre têm à disposição, bajuladores ou mulheres que gostam do estilo “vida bandida”. Mesmo sendo um pária para a sociedade, essas pessoas são consideradas distintas em seus guetos, embora o sistema os trate como lixo. Sacou?
Por isso soou estranho e estarrecedor o tipo de violência ocorrido neste fatídico e inesquecível 07 de abril de 2011. Uma violência absurda, feita por um cidadão desajustado, antissocial e provavelmente onanista.
Absurda porque mexe com o imaginário coletivo. Não que o massacre de inocentes seja coisa do nosso tempo. Sempre ocorreu. A lendária Tróia ardeu sob o fogo grego, crianças eram atiradas contra as paredes ou queimadas vivas. Cartago, no norte da África, resistiu heroicamente por três anos contra a sanha do inimigo romano. Quando sucumbiu, não houve piedade. Delenda est Carthago. No Novo Mundo, cães trazidos pelos espanhóis eram alimentados com recém-nascidos indígenas, na feroz conquista da América. Filhos de escravos negros no Brasil Colônia sofriam os mais terríveis castigos. Nas guerras, as crianças, ao lado das mulheres e dos idosos, são as principais vítimas.
Tudo vai depender de como vamos encarar esse trágico e comovente evento.
Seremos inundados por teóricos dos mais variados tipos, tentando explicar a natureza ou comportamento humano. Farão um raio-X do assassino, esmiuçarão sua vida, lerão inúmeras vezes sua enigmática carta, blá, blá, blá...
O que mais pode acontecer conosco? Esse ato deplorável não deve ser o ponto de partida para uma mudança radical na sociedade? Até quando vamos ficar brincando que somos uma nação, com gente determinada e patriótica? Até quando vamos tolerar a “adultização” de nossas meninas, com músicas apelativas e sutiãs com enchimento para crianças de 6 anos? Vamos assistir passivamente a “idiotização” tomar conta da sociedade, a ponto das pessoas abandonarem seus estudos, desprezarem a cultura e tratarem a Educação como despesa? Vamos continuar com a memória volátil, esperando o próximo evento trágico, sempre mais dramático que o anterior? Recuso-me a esquecer. E o inferno do homem é o esquecimento.
Lembro-me quando arrastaram aquele pobre menino pelas ruas do Rio. Seu corpo em carne viva, corroído pelo atrito com o asfalto. Daquela menina que foi jogada de um prédio pelos próprios pais em São Paulo. Do namorado que matou a namorada assim que a polícia entrou no prédio. De uma filha, que tramou a morte de seus pais com a ajuda do namorado. De um pobre índio pataxó, queimado vivo por playboyzinhos entediados de Brasília. De um jovem PM, morto brutalmente com vários tiros, quando cumpria seu dever em Campinas. Lembro-me de todos eles. Temos que nos acostumar com essa roleta russa? Respirando fundo, pois ainda não foi desta vez que fila andou pra gente?
Em 1985, quando servia o glorioso TG-02-038 em São José do Rio Pardo, fui a uma palestra na AAR (Associação Atlética Riopardense), cujo tema era o avanço da AIDS, à época, uma doença parcialmente desconhecida. O médico palestrante exibiu slides de pessoas acometidas pelo vírus e deu-nos informações relevantes sobre este mal. Foi uma palestra de vanguarda, à frente de seu tempo. Em determinado momento, ele disse: “Se nada for feito, no século XXI, toda família terá um aidético em casa”.
Fiquei pensando naquilo por muitos dias...
Infelizmente, neste ponto o palestrante enganou-se. Se pudesse voltar no tempo, diria: No século XXI, cada família terá uma vítima da violência urbana, uma baixa, uma perda irreparável.
Recuso-me a acreditar que essas mortes foram em vão. Recuso-me a esquecer mais uma vez. Recuso-me a trancafiá-lo no arquivo de casos insolúveis. Passeatas pela paz já não resolvem. Algo precisa mudar. E urgente.

E-mail: Paulão