A máquina
que ensina a sorrir
Paulão
Siqueira
Para
ficarem mais simpáticos, funcionários dos trens de Tóquio
treinam todos os dias o sorriso e têm a ajuda de um programa de
computador. Folha de S.Paulo, julho de 2009.
O
Japão talvez seja o país mais metódico do mundo.
Disciplinados, pacientes, criativos. Devem ser também submissos,
resignados e frustrados. Mas para analisar esses últimos aspectos
com propriedade, eu teria que morar lá por muitos anos, coisa
que nem passa pela minha cabeça.
Os japoneses sempre foram muito fechados. Na expansão marítima
europeia, portugueses e holandeses puseram seus pés lá.
Consta que a cidade de Hiroshima foi fundada pelos colonizadores lusitanos.
Até hoje, um reduto católico na terra de Buda. Os holandeses,
eram chamados pelos nipônicos de “bárbaros de cabelos
ruivos”. Imaginem o que os habitantes da casa de Orange fizeram
por lá para receberem tão infame apelido.
Mais tarde, o Comodoro Perry, entrou com suas canhoneiras na baía
de Tóquio, obrigando o Japão a abrir seu mercado aos norte
americanos. Com pesados investimentos capitalistas, o Japão saltou
do feudo para a industrialização em menos de cinquenta
anos. No início do século XX já desafiava (e vencia)
a Rússia em uma guerra por possessões coloniais em 1905.
Posteriormente, inflados pelo ego militarista e sedentos por conquistas
mercantis, o Japão entrou em guerra com os Estados Unidos em
1941, sendo arrasado, inclusive por armas nucleares.
Adotado e protegido pelos americanos no pós-guerra, o Japão
alcançou notável desenvolvimento tecnológico e
social, tornando-se uma potência altamente desenvolvida nos dias
atuais.
Em todos os casos, sempre chamou atenção a capacidade
de adaptação e assimilação da tecnologia
ocidental pelos japoneses. Começou com mosquetes portugueses
encontrados num naufrágio no século XVI. A partir de um
modelo, os orientais faziam cópias perfeitas e através
delas chegavam ao aperfeiçoamento e eficácia totais. Isso
vale para tudo que é deles: automóveis, computadores e
toda sorte de parafernálias eletrônicas. E pensar que nos
anos sessenta, um produto “Made in Japan” era motivo de
piada, por ser sinônimo de porcaria, o salto tecnológico
foi impressionante. Uma verdadeira obsessão por limpeza, pontualidade
e precisão, que chega a nos irritar. Ainda mais nós, brasileiros
da gema, acostumados ao desleixo, aos atrasos, e a sujeira física
e moral.
Essa mania de precisão levou o metrô de Tóquio,
que é um dos mais limpos e eficientes do mundo, a elevar seu
padrão de qualidade, criando uma máquina que ensina os
funcionários a melhorar seu sorriso, no atendimento ao público.
Homens e mulheres impecáveis em seus uniformes são treinados
por um computador que avalia a qualidade do sorriso e atribui uma média.
Quem não atinge a média não perde o emprego, mas
precisa submeter-se a novos testes, até atingir um nível
considerado de excelência.
No metrô do Rio de Janeiro, tempos atrás, assistimos as
cenas de violência dos agentes de segurança espancado os
usuários e empurrando-os, à força para dentro dos
vagões.
Que máquina deveria ser inventada para domesticar tal comportamento?
Acho que os japoneses iriam lucrar muito se inventassem tais máquinas
e adaptassem ao cenário “tupiniquim”. E haveria uma
variedade delas: máquina que ensina a ser gentil e educado, máquina
que ensina a dizer obrigado, bom dia, boa noite, desculpe, eu te amo,
etc. Talvez surgisse uma do tipo: seja honesto, não se corrompa,
aplique corretamente os recursos do orçamento de sua cidade,
etc, etc, etc. Quem não se ajustasse ao programa, seria reeducado,
de preferência num Gulag.
A demanda seria bem grande, mas claro que tudo não passa de ficção.
Comportamentos humanos não podem ser condicionados como programas
de computador. Pelo menos até hoje, isso não se mostrou
possível. Tudo aqui não passa de uma brincadeira, pois
nenhuma máquina pode moldar um caráter. Isso é
feito através das relações econômicas (sobretudo
essa), sociais e do doutrinamento ideológico.
No Irã, na China e na Coreia do Norte essas coisas são
pura frescura. Lá ainda usa-se o fuzilamento, o enforcamento
em praça pública ou num campinho de futebol. Em Cuba recorre-se
ao “paredón”. Simples, eficaz e pragmático,
bem ao gosto dos últimos socialistas reais.
No Japão, inventam máquina pra tudo. Mas no meio de toda
essa tecnologia e informática, eles ainda acreditam em fantasmas,
almas penadas e assombrações.
E máquina nenhuma pode reverter a frieza dos professores de suas
escolas no trato diário com os alunos, ou o alto índice
de suicídio entre os jovens que não passam no vestibular
ou perdem o posto de melhor aluno da escola em Matemática. O
haraquiri, o suicídio ritual, feito em nome da honra é
mais poderoso que qualquer máquina, pois neste mundo, ninguém
é perfeito mesmo.