
É “flórida” ser gordo!
Existe
uma forma de preconceito silenciosa, mas muita ativa nos bastidores
da sociedade. A discriminação aos obesos, os gordinhos
de maneira geral. Recentemente tivemos o triste episódio
do famigerado “rodeio das gordas”, ocorrido durante
um evento envolvendo vários campi da UNESP em Araraquara,
interior de São Paulo. Organizado por algum “gênio”,
a violência consistia em fazer rapazes abordarem as moças
gordinhas que estavam em uma festa e em determinado momento, elas
eram “montadas”. Ganhava o “prêmio”,
quem ficava mais tempo cavalgando a menina. Uma galera entoava canções
de incentivo ao “peão”. Tudo filmado e colocado
nas redes sociais. A UNESP, juntamente com a UNICAMP e a USP, compõe
o que chamamos de Santíssima Trindade das Universidades Públicas.
Nelas, teoricamente estudam a elite endinheirada ou intelectual
do país. Se a “elite” pensa e age assim, imagine
o que faz o restante da galera... Foi um ato deplorável que
deveria ser duramente punido. Os responsáveis pelo rodeio,
alegam que tudo não passava de uma brincadeira.
Agora
virou moda classificar tudo como brincadeira: Ateei fogo num mendigo!
Mas foi de brincadeira. Dei um soco na cara daquele fracote! Mas
foi brincadeira. Meti a mão no dinheiro público, comprei
mansões e carrões! Mas tudo não passou de uma
brincadeira. Atropelei um pedestre e fugi sem prestar socorro, mas
foi tudo uma brincadeira. Acho que estamos vivendo num país
de brincadeira.
Outro
assunto que trouxe à tona esse tipo de preconceito foi uma
recente pesquisa feita pelo Hcor (Hospital do Coração),
onde metade dos paulistanos e dos cariocas declara que não
se casaria com uma pessoa obesa. Um nível de rejeição
próximo dos 50%, mais alto entre os homens (54%) e predominante
na Classe social A (66%). Isso pra você que gosta de números.
São
dados que revelam um elevado grau de preconceito contra os obesos.
Aliás, a obesidade é a terceira causa objeção
das empresas na hora de contratar um executivo. Só perde
para a inconstância no cargo e para o tabagismo. Então,
se você muda de emprego toda hora, fuma como um dragão
e ainda por cima é gordo, prepare-se para uma longa temporada
de folga.
Os
gordinhos e gordinhas sofrem. São piadas, histórias
maldosas, imagens na Net. Mas nem sempre foi assim. O padrão
de beleza foi mudando ao longo dos tempos. Na Idade Média
era o contrário. As pessoas preferiam casar com os mais fofinhos,
pois fartura de carne significava saúde. Gente muito magra
era sinônimo de doença. Era viuvez na certa. Gente
magra e muito limpa não era vista como algo que hoje consideramos
saudável. A pressão pela magreza começou quando
surgiu a sociedade de massa, de consumo, a paranoia pela limpeza,
pelo corpo esquálido. Foi no século XX, com a sofisticação
do mercado de consumo e da sociedade de aparências. Começaram
as dietas, o Cooper, as caminhadas ecológicas. Depois surgiram
os alimentos diet. O ovo frito, a costelinha de porco e a mortadela,
viraram os vilões da vez. Tudo americanizado. E como bons
miquinhos amestrados, copiamos tudo deles. Aliás, nos Estados
Unidos, um em cada três americanos está bem acima do
peso. A obesidade por lá é tratada como praga. Ao
mesmo tempo as indústrias alimentícias despejam centenas
de toneladas de alimentos açucarados ou salgados nas prateleiras
dos supermercados ianques. É a pressão pela comida
fácil, altamente calórica. As pessoas ficam enormes
e as empresas rechonchudas pelo lucro.
Nos
últimos 25 anos, acompanhamos as lutas sociais serem substituídas
pelas academias de ginástica. Corpo sarado virou sinônimo
de saúde. Neste turbilhão de novas ideias, os obesos
levam uma tremenda desvantagem. A pressão sobre eles é
enorme. Os casos de bulimia e de magrezas extremas multiplicam-se
com uma rapidez voraz.
Nossa
espécie, no longo processo de evolução, foi
moldada para longas caminhadas. Temos um eficiente sistema de refrigeração,
o suor, que mantém a temperatura do corpo estável.
Como, na Pré-História não existia supermercado,
fartura de alimentos e controle remoto, nossos ancestrais tinham
que ter uma boa reserva de gordura, para suportar os períodos
de escassez de alimentos. Quando abatiam um mamute, comiam tudo,
até se empanturrar, pois não sabiam quando iriam comer
novamente, já que tudo dependia da engenhosidade das armadilhas
para caça e a generosidade da natureza. Por isso, que a imagem
icônica dos trogloditas é aquela em que são
retratados com suas barrigas proeminentes.
Com
a modernidade, ganhamos imobilidade. O número de obesos multiplicou-se.
Os genes de nossos ancestrais famintos e gordinhos estão
espalhados por aí. A obesidade é genética (quase
todos os estudos apontam isso) e deve ser tratada com naturalidade,
não com preconceito e violência. Os gordinhos precisam
insurgir urgentemente contra a ditadura da magreza e seus implacáveis
e cruéis defensores.
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Paulão