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SOB O DOMÍNIO DA CANA
George W. Bush esteve no Brasil em março de 2007. Alguém ainda se lembra? Entre acordos e aparatos de segurança (afinal, César estava visitando uma de suas empoeiradas províncias), as atenções estavam voltadas para o interesse americano na produção de etanol e álcool. Tudo gerado pelo temor do aquecimento global e a possibilidade de diminuição dos lucros, não do encolhimento da calota polar ou extinção de diversos animais. Para esses temores naturais, podemos recorrer ao filme do Al Gore ou pedir alento a algum monge tibetano. O fato é que os ianques estavam interessados no álcool brasileiro, produzido aqui pela moagem da cana-de-açúcar a popular Saccharum officinarum, natural da Ásia e introduzida em Pindorama no século XVI pelos portugueses. O recado era bem claro: como boa colônia agrícola, deveríamos aumentar a produção de álcool combustível e exportá-lo para a "América", onde ele seria adicionado aos combustíveis locais, numa tentativa de diminuir a emissão dos gases estufa, considerados os vilões do aquecimento global. O Brasil cumpriu fielmente sua parte no acordo, afinal, a subserviência sempre foi nossa marca registrada. O presidente Lula chegou a chamar os usineiros de "heróis". São notadamente os maiores caloteiros do Brasil, responsáveis por boa parte do atraso nacional e ainda assim recebem tratamento vip. Só que neste jogo deu zebra, pois a área para plantio de cana foi ampliada, a produção do bio-combustível aumentou vertiginosamente, mas os americanos não compraram o esperado. Resolveram investir em etanol de milho, produto que eles produzem em abundância. A conta ficou cara. Nós, com cara de tacho, chupando pirulito sem palito. Eles, com aquele cinismo peculiar dos quackers, jogando a culpa na gente, pela desestabilização da produção mundial de alimentos. Os que conhecem um pouquinho sobre monocultura, sobre plantation, devem saber também dos efeitos devastadores desse tipo de prática agrícola. A área de plantio aumenta, pois quanto maior a produção, maior o lucro. Como se planta exclusivamente um produto (no caso, cana), há uma queda dos chamados hortifrutigranjeiros e outros grãos, como feijão, lentilha, grão-de-bico, arroz, etc... Basta ler um livrinho qualquer de história para entender que o Brasil só passou a despertar interesse, a partir da possibilidade de se produzir açúcar, lá no século XVI. Naquela época, o açúcar era mais caro que caviar Beluga, deixado de herança ou dote de casamento. Os portugueses conheciam a técnica da produção, iniciada na ilha da Madeira e no arquipélago dos Açores. Mas a produção era ínfima, não atendia as necessidades de mercado. Nos séculos XVI e XVII, a capitania de Pernambuco tornou-se a mais rica do mundo, graças a produção de açúcar mascavo. Não é à toa que os maiores sócios dos portugueses eram os comerciantes de Amsterdã, os holandeses, que chegaram a invadir o Nordeste com trezentos navios de guerra, só para assegurar o doce negócio da Saccharum, que refinada por eles, dava um lucro pra diabético nenhum botar defeito. Todo esse exaustivo trabalho era feito por escravos adquiridos de traficantes brasileiros, os verdadeiros donos da África. A média de vida de um escravo, na lida (trabalho no campo) era de aproximadamente sete anos. Ao serem expulsos daqui, em 1654, os holandeses levaram a técnica de produção para as Antilhas, no Caribe e "babau" Brasil. Dançamos feio! No século XX, o Estado de São Paulo tornou-se o maior produtor nacional de açúcar e álcool. O Nordeste nunca conseguiu recuperar-se economicamente. A monocultura priva a produção de alimentos. A fome rondava as grandes plantações. Havia falta de nutrientes básicos e consequentemente, muita desnutrição. Será que estamos revivendo essa febre? Mundo estranho o nosso: a máquina bem alimentada, de forma barata e a custa do suor e sangue de muitos trabalhadores rurais, obrigados a longas e exaustivas horas de trabalho no corte da cana, feito ainda aos moldes do século XVI, com queimada, para facilitar a colheita e decepada a golpes de facão. Muitos trabalhadores rurais apresentam problemas crônicos de saúde e não raro, morrem de exaustão no trabalho. O álcool combustível diminui os efeitos nocivos do dióxido de carbono na atmosfera, pois na sua queima, há uma emissão menor de poluentes, isto não resta dúvida. Mas estamos pagando um preço alto por isso. Na dúvida visite um canavial em época de colheita e converse com um bóia-fria. Garanto que não há nada de novela das oito neste roteiro.
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