AS CRIANÇAS SUMIRAM DAS RUAS

As crianças sumiram das ruas! É a constatação de um fato. Confirmei isso, dias atrás, nas férias escolares. Estava em casa, sossegado da vida, quando escutei barulhos na rua bem pouco familiares nos dias atuais e muito vívidos na minha infância. Era o som de crianças na rua, brincando. Desci as escadas e fui ao encontro delas, só para espiar. Eram quatro ou cinco crianças entre 9 e 12 anos. Brincavam de bola. Uma brincadeira simples. Mas o som... Puxa vida! Quanto tempo eu não ouvia esse som. Não me contive. Abri a porta e caminhei em direção a elas. E falei:
—- Criançada! Chegue mais perto.
As crianças foram se aproximando, lentamente, receio nos olhos.
— Vocês não sabem como estou sentindo bem. Lembrei da minha infância. Eram sons parecidos. Fazia tempo que eu não ouvia isso.
Um menino falou para o outro:
— Pensei que ele ia ficar bravo com a gente.
Agradeci e voltei para dentro de casa. Elas continuaram brincando por mais alguns minutos. Depois, um adulto as chamou. Foi aí que comecei a refletir. O que está acontecendo com as crianças? Elas realmente sumiram das ruas. É claro que não desapareceram como num passe de mágica, nem deixaram de ser crianças, apenas se adaptaram aos novos tempos, tempos difíceis, diga-se de passagem. Não estou a fim de criar uma atmosfera saudosista, que sempre se inicia com o clássico: “No meu tempo...”. Sacaram? Nem quero dizer que hoje está tudo ruim e o passado é que era bom. Constato apenas, nada mais. E lamento.

As crianças sumiram das ruas, tragadas pela tal modernidade. Hoje é tudo monitorado, de plástico, fugaz. A criança tem pouca autonomia. Um celular, um bip de plantão, sempre monitorando tudo, na rua, no clube, na casa dos amigos. As parafernálias eletrônicas dominaram o cenário. É videogame, MP3, Blog, MSN, e outras terminologias desconhecidas para mim. Sim, estamos na era do Big Brother. O Bicho-Papão foi substituído pelo ladrão armado, pelo seqüestro relâmpago. A violência recrudesceu. Eu entendo a preocupação dos pais modernos. Eu não deixaria um filho solto por aí. Quando era criança havia os medos. Isso é natural. A mãe da gente alertava: cuidado! Não pegue nada de estranhos, carona, doces etc. Essas regras são universais e possuem prazo de validade indeterminado. Mas hoje, a insegurança tomou proporções gigantescas. Alguém vai pagar por isso. Infelizmente são as crianças, as maiores vítimas.

A bola de gude, o pique-de-sela, o pique-de-esconder, o “uma na mula, dois pequené” (escrito literalmente, como falávamos), o taco, corrida de carrinho de rolimã, a fruta roubada do vizinho (sempre a melhor), as peladas no campinho com bola de capotão, os carrinhos de latinha, jogo de botão, o velho médico e enfermeira. Rolava até brincar de casinha com as meninas, desde que pudéssemos ser um pouco grosseiros, o que é de praxe entre os moleques. Não digo que essas brincadeiras desapareceram por completo, mas boa parte das crianças desconhece seus termos, usos e regras. São coisas que paulatinamente estão sendo perdidas.

Essa letargia se reflete no cansaço e no tédio diário que muitas crianças apresentam, na escola, no convívio com a família, com os poucos amigos. A alimentação também é ruim. Lanches sem gosto (o Mac Nojo), as guloseimas cheias de açúcares e gorduras trans, o excesso de refrigerantes. A obesidade infantil está cada vez mais presente nos lares brasileiros. Existe um número significativo de crianças estressadas. A quantidade de horas perdidas em frente à TV. Os diálogos resumidos ao abominável “arã, arã...”. Ou então, com MP3 ligado à orelha, o diálogo com os mais velhos, desaparecendo quase por completo. Sinal dos tempos, modern times...

Na infância, onde as relações humanas devem ser aprimoradas e sedimentadas, elas se deterioram. Os poucos amigos criam regras próprias, muitas delas acabam descambando para o perigoso jogo do fascismo, onde o negro, o pobre, ou o diferente, torna-se uma ameaça pronta para ser eliminada, ou confinada no outro lado do “muro”, da exclusão, do apartheid social.

Minha infância não foi pior nem melhor que a infância de hoje, foi apenas diferente. Havia brigas, rixas entre ruas. Mas havia solidariedade. Um amiguinho não deixava o outro na mão. As brincadeiras lúdicas ajudaram a moldar meu ser, meu caráter, minha inteligência.

Eu sei o que você deve estar pensando: Ah! Entre os mais carentes, essa infância lúdica ainda existe. São os filhos da classe média e dos ricos que passam por essa infância pasteurizada.

Ledo engano. Os ricos, claro, dispõem de mais proteínas e recursos. Mas as crianças carentes também abandonaram esse estilo de infância. Alguns moleques empunham revólveres, trabalham para o tráfico, convivem com a violência, precisam trabalhar desde cedo. Estão à cata de papelão ou de latinhas de alumínio, num canavial ou carvoaria. Infâncias perdidas para sempre.

Vou reforçar: Não estou comparando, apenas analisando. Muitas crianças se divertem e brincam à moda antiga. É possível encontrá-las por aí, no interior do Brasil, pois nas grandes cidades o que prevalece são os ambientes fechados, em creches, clubes, na casa de um amigo. A infância é irreversível. Você passa por ela e não tem volta. Se foi legal, ótimo. Se foi ruim, você carrega o ônus. As ruas ficaram chatas. Estão vazias. As crianças sumiram delas...