voltar - Crônicas do Paulão


Foto: Maciel

SERÁ QUE AS ÁGUAS DE MARÇO AINDA FECHAM O VERÃO?

Nunca choveu tanto quanto neste janeiro de 2010, pluvioso ao extremo e causador de inúmeras catástrofes: São Paulo, com mais de sessenta mortes, Angra dos Reis e Ilha Grande, tragadas por desmoronamentos de terras que ceifaram as vidas de moradores e turistas endinheirados. Fato raro no Brasil é ver rico morrendo feito pobre, mas infelizmente as tragédias em nossa terra não andam escolhendo quem tem conta bancária gorda, mas nunca é demais lembrar que quem contabiliza o maior número de baixas são os excluídos de sempre, do Bang Bang do capitalismo selvagem brasileiro.
Quando o grande poeta Antonio Carlos Jobim compôs o clássico “Águas de Março...” não poderia imaginar que as chuvas torrenciais deste verão de 2010 fossem tão devastadoras. Não que antes chovesse menos, claro. Os cientistas calculam que na formação de nosso planeta, na composição da atmosfera primitiva, tenha ocorrido uma chuva ininterrupta de cerca de 40 mil anos, sendo responsável pela formação das grandes massas de água que hoje chamamos de oceanos. Isso sem contar a história clássica do lendário Dilúvio, onde a raça humana foi praticamente exterminada pela ira divina. Fomos salvos por Gilgamesh (nas lendas sumérias) e Noé, este último um autêntico herói bíblico. Graças a eles, voltamos a povoar a Terra e perturbá-la de forma preocupante. Grandes enchentes sempre fizeram parte da rotina da humanidade. A água é extremamente benéfica e essencial para a manutenção da vida em nosso planeta. Sem ela, nosso organismo sucumbe em poucos dias. Soma-se a tudo isso, o terremoto devastador ocorrido no Haiti, e o inverno congelante do Hemisfério Norte contribuindo para que o mês de Janeiro fosse um dos mais mortíferos de todos os tempos. É a fúria da natureza votando-se contra as mazelas provocadas pelo homem, com seu apetite voraz pelo lucro e a comodidade? Seriam essas chuvas, resultado do desequilíbrio ecológico em curso? Enquanto escrevo essas linhas, Fevereiro avança no calendário. A chuva deu uma trégua. Um Sol abrasador parece consumir a todos, estabelecendo um paradoxo climático: Se chove em excesso, ficamos alagados, sem chuvas somos esturricados por um calor senegalês.
Esses são os dilemas do homem moderno. Temos que enfrentar as intempéries cada vez mais virulentas devido às mudanças climáticas. O crescimento desordenado da civilização transformou as grandes cidades em caixas de cimento, onde a impermeabilidade dos solos provoca alagamento de ruas, pontes e viadutos. A metrópole paulista sentiu isso na pele. Pode-se notar muito lixo jogado pelas ruas, entupindo bueiro e bocas de lobo. E não venha falar que isso é coisa de pobre. Os ricos têm sua parcela de culpa. Jogar as coisas no chão, nos rios, nas vias públicas, em terrenos baldios, parece fazer parte da cultura do brasileiro. Há um despreparo da população com relação a criação de uma consciência ecológica. Tudo isso demonstra uma falha educacional brasileira, que não consegue colocar na prática, as ações corriqueiras da vida, como por exemplo, jogar detritos no lixo. Não conseguimos superar pequenos detalhes básicos da educação ambiental. Grandes desafios estão por vir e ainda não aprendemos a jogar um mísero papelzinho no cestinho de lixo.
Enchentes, deslizamentos de terra, invernos rigorosos, terremotos, são fenômenos que servem de reflexão para uma humanidade cada vez mais afastada da natureza. Essas catástrofes deveriam servir de alerta e de medida para o tamanho de nossa fragilidade. A natureza nos chacoalha e mostra o quanto somos dependentes dela em nossa ações diárias e nem sequer damos conta disso.

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