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O
DEDO DO ACUSADOR OU CRÔNICA DE TEMPOS DE LAMAÇAIS PROFUNDOS
O dedo do acusador aponta em riste para o rosto do acusado. O acusado,
trêmulo, finge que não entende do que o acusador o acusa
e confunde a todos.
Do lado direito do acusador, um nobre deputado rechonchudo, que também
é acusador, olha nervosamente para o relógio, contando
as horas para ir embora.
Do lado esquerdo do acusador, uma nobre senadora em vestes plebéias
ensaia seu ato. Ela pretende roubar a cena e se tornar, pelo menos por
hoje, a acusadora do dia.
O dedo do acusador continua firme, fálico, apontando para o acusado.
O debate é transmitido ao vivo para todo o país. E por
incrível que pareça, todos param para ver a peleja, tal
como uma partida de futebol, paixão nacional.
O acusado, um certo tesoureiro real é intimado a falar o que
sabe sobre caixa 2, compra de parlamentares, orgias e outras falcatruas
com dinheiro público. O acusador tem o talento da eloqüência.
É de um porte físico considerável, canta Verdi
nas horas vagas. Recita Homero e Virgílio de cor e salteado.
E acusa bem, vocifera. Sempre com o dedo em riste. Um telespectador
mais atento pode notar as gotículas de saliva que são
expelidas da boca do acusador. Outro vê o engolir seco do acusado
depois de cada pergunta.
As horas passam, absurdas, e nada, absolutamente nada se conclui. O
acusador se cansa, cede seu lugar para outro. O acusado se refresca
com um gole d`água.
É mais uma C.P.I., é mais um escândalo. Mas se trata
de um país de escândalos.
O acusador se retira, empapado de suor. Seu semblante é de preocupação.
Ele sabe que deve, e deve muito. Seu dedo é tão sujo quanto
o rosto do acusado. Pode ser lama, pode ser merda.
Ele descansa. Sabe que amanhã será o acusado e vários
dedos estarão apontados para ele.
E o povo? O povo assiste, perplexo, entre uma bocada e outra de lanche
vagabundo, diante do frenesi de automóveis e poluição.