O TAPA-BURACOS
Nós o encontramos por toda parte. Ele pode ser bem real ou metafórico. Ele é o tapa-buracos. Através dos tempos pudemos constatar sua existência. Um simples soldado promovido repentinamente a general, para liderar uma batalha perdida. Eis aí, um autêntico tapa-buracos.
Existem os tapa-buracos providenciais. Na desastrosa campanha da Rússia em 1812, os soldados de Napoleão tapavam os buracos das casas em que se abrigavam, com pedaços de soldados mortos, para fugirem do rigoroso inverno russo. Uma calafetagem macabra, sem dúvida.
Encontramos com ele na cadeira do dentista, quando o profissional bucal se aproxima de nós, com aquela temível broca, a fim de tapar um dente corroído pela cárie de nossa negligência para com os alimentos açucarados.
São encontrados aos milhares nas principais vias asfálticas de nosso país, onde a precariedade de materiais, preguiça e desmazelo, levam nossas ruas, ruelas, rodovias e avenidas a se tornarem parecidas com a superfície lunar. É claro que encontramos mais buracos do que propriamente tapa-buracos. Algumas suspensões ou amortecedores quando quebrados, nos fazem reclamar e lembrar de sua existência. Esse tapa-buracos é composto de uma liga de piche com pedrinhas, grudadas ao chão com o vai-e-vem dos carros. Jogado do alto de um caminhão, dura poucas semanas, até a próxima chuva, é claro.
Na área educacional eles também são encontrados, embora ninguém goste muito de assim ser chamado. Mas muitos mestres são tapa-buracos, chamados por uma emergência repentina do titular das aulas, dor de barriga ou inflamações da laringe, um mal que acomete muitos professores. Muitos substitutos são ruins e a classe logo consegue identificar neles autênticos tapa-buracos. O passo seguinte é não respeitá-los. Mas acontece que muitos tapa-buracos têm dignidade e quando reconhecidos, tornam-se melhores que os titulares e deixam de ser simples tampões.
No mundo político eles são encontrados em profusão. Estão escondidos ou à mostra. Alguns nem se importam de serem classificados como tal, até gostam. Os tapa-buracos mais dedicados alçam vida própria, alguns se tornam políticos de renome.
É comum nas repúblicas de bananas que eles se tornem numerosos, apenas para serem depostos ou assassinados pela turba enfurecida. Em Roma, nos tempos áureos do Império, eram tantos os tapa-buracos, que quase não havia tempo para outras urgências, como governar. Havia o delicioso exercício de promover, destituir e matar com tanta rapidez, que ninguém lembrava quem substituía quem.
Esse é outro problema que o tapa-buracos enfrenta: o risco do anonimato e do esquecimento. Por isso, um verdadeiro tapa-buracos deve lutar para romper o círculo do destino de ser um eterno tampão.
Por fim, existem os que procuram desesperadamente tapar buracos. São aqueles encarregados de dar explicações, encobrir falcatruas ou sacanagens diversas.
Existe gente que não fica sem um tapa-buracos, seja homem ou mulher. Trata-se de gosto e todo mundo sabe que gosto não se discute.
Ah! Existem os coveiros (uma nobre profissão). Eles tapam buracos que ninguém quer entrar.