SETE
DE SETEMBRO DE MIL NOVECENTOS E SETENTA E QUATRO
Naqueles tempos, anos de chumbo, a Semana da Pátria era um
grande evento. Começava antes, com um mês de antecedência.
Aprendíamos a cantar o Hino Nacional, com suas estrofes e
palavras que pareciam ter vindo da Lua: Margens plácidas,
brado retumbante, lábaro que ostentas estrelado, flâmula,
etc. Dicionário à mão, na caça as palavras.
Tudo anotado no caderno. Professoras com cara de poucos amigos,
passavam pelas carteiras, à caça dos “preguiçosos”
ou dorminhocos. Elas tinham poderes sobrenaturais. Aquilo foi a
era da autoridade.
Depois, na semana que antecedia o feriado, todos deveriam ter uma
fitinha verde amarelo grudada com alfinete no uniforme. Os uniformes
variavam de tempos em tempos. Houve um tempo do jaleco branco. Alguém
ainda se lembra disso?
Todos os dias havia o hasteamento da bandeira e execução
do Hino Nacional. Uma funcionária, não me lembro bem,
ficava de olho em nossas bocas, para ver se alguém balbuciava
a letra, ao invés de cantar. Coitado daquele que fosse pego
tentando enganar o bedel. Era simplesmente exterminado.
Ameaças havia mil... A gente acreditava no quartinho da caveira.
Um lugar descrito como terrível, escuro como o espaço
profundo e onde um esqueleto humano, pendurado, servia de carrasco
dos amaldiçoados.( Não conheço ninguém
que tenha sido para lá mandado, mas pelávamos de medo).
Olhando hoje, para aquele passado não muito distante, nem
parece a mesma esfera pública. Muita coisa mudou de lá
pra cá. Muitas coisas melhoraram. Outras nem tanto...
O Sete de Setembro de mil novecentos e setenta e quatro (a data
é apenas uma metáfora) representou uma era de totalitarismo
extremo. Não sabíamos o significado da palavra ditadura.
Éramos garotos do interior (eu com uma pequena estadia em
São Paulo via a polícia descer o cassete nas pessoas,
mas não imaginava por quê). Nossas mães eram
tipo bico calado, mulheres que abraçaram verdadeiramente
a maternidade. Eram rigorosas, mas carinhosas ao extremo. E ingênuas.
Não sabiam nada do que rolava nos círculos do poder.
O interior de São Paulo de uma maneira geral sempre foi muito
conservador e provinciano.
Nossos mestres alternavam-se entre aqueles que detinham a autoridade
absoluta, distribuindo algumas “reguadas” e “croques”
e aqueles que por silêncio, medo ou omissão, não
ousavam fazer “pipi” fora do penico e contestar a ordem
vigente. Mas todos, de certa forma eram extremamente autoritários.
Exceção feita a uma bonita professora substituta,
que hora ou outra lecionava no lugar da professora titular. Eram
jovens mestres, mais permissivos, abrindo, para nós, uma
pequena brecha para a liberdade.
As salas de aula eram limpas e organizadas. As carteiras ainda eram
confeccionadas para duplas. Havia um orifício na mesa, que
outrora servira de tinteiro para canetas estilo Parker. Eram (as
carteiras) chumbadas no chão. Não havia espaço
para trabalhos em grupos. As aulas eram expositivas. O método
de alfabetização adotado era o fônico, com a
famosa cartilha “Caminho Suave”. Muitos alunos saíam
da escola com grandes dificuldades de aprendizagem, mas a grande
maioria conseguia dominar os rudimentos da escrita, e fazer as quatro
operações matemáticas ao final dos quatro anos
de vida escolar. A maior parte dos alunos era alfabetizada no primeiro
ano do grupo escolar. Havia festa no dia da entrega da cartilha.
Cada aluno trazia de casa um prato de doce ou salgado. O Diretor
comparecia em cada classe e fazia a entrega do livro. Era um ato
solene. Sentíamos valorizados e importantes. Mas não
passava disso. O aluno estava sempre errado. Ninguém ousava
contestar as autoridades. Os anos de chumbo criaram uma geração
temerária e obediente, como reza a cartilha fascista.
Se os professores eram autoritários, a Direção
da escola era um templo sagrado, e o Diretor, as personificação
do déspota. Não havia uma pessoa mais enigmática
do que uma Diretora de Escola daqueles tempos. Sua sala era uma
espécie de caverna, habitada por uma fera sedenta de sangue.
Local cuja aproximação da porta, gerava terríveis
calafrios. Eram diretoras carregadas na maquiagem, com soturnos
vestidos, longos brincos e sapatos de salto. Algumas até
fumavam. Havia figuras masculinas exercendo essa função,
mas eram raros. Era um mundo dominado por mulheres, uma espécie
de reino das amazonas, as amazonas da educação. Suas
punições não variavam muito. Além das
humilhações verbais, mandavam a gente ficar em pé,
olhando para a parede, fazer resumo de livro na biblioteca, levar
bilhete para casa ou ordenar a temida suspensão. Podíamos
ser expulsos, sem mais nem menos. Não havia apelação,
nem Conselho Tutelar. Em casa, era bem possível que fossemos
punidos novamente, pois a autoridade paterna e materna era incontestável.
Toda casa tinha um açoite ou uma cinta pendurada atrás
da porta. Sinal inequívoco de que não podíamos
pisar na bola.
Por fim, chegava o Sete de Setembro. A Escola era reunida no pátio.
Havia uma rápida solenidade, e todos rumavam, em ordem, para
a Praça central, onde ocorria o desfile e o ato solene. Desfilávamos
ao som das fanfarras, dos surdos, repiques e cornetas. O Tiro de
Guerra abria a solenidade. Prefeito, vereadores e outras autoridades
ficavam perfilados num palanque ou em algum obelisco na praça.
Pelas ondas televisivas da antiga TV Tupi, canal 4, São Paulo,
transmitia-se o desfile em Brasília. Momento orgástico
da Ditadura, pelotões de homens e armamentos, marchando em
preto e branco na tela da TV Colorado R.Q., a marca mais vendida
daquele tempo.
E assim eram os primeiros dias de setembro que antecediam a primavera
e o dia da árvore. Depois vinha o dia da criança,
onde o cardápio da merenda finalmente sofria uma alteração.
Era o dia do cachorro quente ou da macarronada, substituindo uma
intragável sopa cotidiana. Os dias de lavagem cerebral e
ar positivista ficavam para trás, mas marcados em nossas
almas, como ferro em brasa no couro de uma novilha.
E-mail:
Paulão