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A palhaçada de 1º de Maio

O Dia Internacional do Trabalho, feriado de 1º de Maio, deveria ser um dia de reflexão e luta por melhores condições de vida e salários de toda classe operária. Acho que em muitos países da Europa e até mesmo nos Estados Unidos, esta palavra de ordem ainda deve ser cumprida. No Brasil, nem tanto...
Nos últimos tempos pudemos acompanhar as mudanças nos Sindicatos brasileiros, que passaram da luta, para o mais absoluto clientelismo e corporativismo. Os líderes sindicais arvoraram-se em clãs, cuja chefia, complexa, visa entre outras coisas, o parasitismo, o compadrio a ascensão social e, sobretudo política. São inúmeros, os sindicalistas que se lançaram em bem sucedidas empreitadas políticas e foram eleitos nos mais diversos níveis dos poderes políticos. Acho que só não chegaram ao Poder Judiciário, instância pertencente a uma casta intocável, oriundos de outras plagas.
O sindicalismo brasileiro já viveu dias melhores.
Surgiu com os anarquistas italianos, seguidores de Malatesta, no início do século XX. Fundaram jornais e fomentaram as primeiras greves operárias no Brasil. Nos anos setenta e oitenta, em plena ditadura, os metalúrgicos do ABC, desafiaram o governo e as poderosas multinacionais, com greves longas e até mesmo violentas, onde mostravam que não estavam a fim de barganhar nada que não fosse explicitamente em benefício dos trabalhadores.De quebra, surgiu um líder natural daqueles tempos: Lula!
Carregado pela massa, idolatrado pelo proletariado, temido pelos milicos e patrões. Aquele Lula não é nem sombra deste que habita o Palácio do Planalto atualmente. (Mas confesso: prefiro ele com mil defeitos, do que os mauricinhos assépticos e com cara de nojo do povo).
A metamorfose sindical orquestrou-se no final dos anos 80 e enraizou-se nos anos noventa. Os sindicatos foram, paulatinamente, servindo de trampolim para aventureiros e demagogos. Soma-se a isso, a alienação crescente das massas trabalhadoras, a decadência da educação e a falta de politização geral da população.
Do aparelhamento para o circo foi um pulo. O 1º de Maio tornou-se o paraíso dos shows de gosto duvidoso. Em todos os locais, políticos passaram a aproveitar deste quinhão. Festas com sorteios de brindes: terrenos, cestas básicas, muletas, dentaduras e frango congelado. Vale tudo para a auto promoção. E a massa, agradecida e anestesiada pelo senso comum, fornece quorum e reforça essas atitudes de líderes populistas.
Aprecio uma festa. Uma música bem tocada, um talento. Isso bastaria! Mas não! Os sindicalistas, prefeitos e vereadores precisam dar o ar da graça. Aparecer a todo custo, vestidos com o manto sagrado da hipocrisia, que reduz tudo ao mero estado de mercadoria.
Desse jeito, a classe operária não vai ao Paraíso. É preciso mudar paradigmas. Uma nova consciência operária, já! Senão, poderemos nos confortar em levar um tanquinho ou uma batedeira de bolo para casa e nos sentirmos no melhor dos mundos.

PS: Na minha infância em São José do Rio Pardo, acordava ao som da Filarmônica Riopardense, onde meu saudoso avô tocava clarinete. Era a Alvorada de 1º de Maio. Linda, cheia de cores, cheiros e retretas bem executadas. Fogos pipocavam. Os músicos na boléia de um caminhão tocavam o Hino Nacional, a Marselhesa e outras mil. Hoje, loucos e bêbados transgridem a lei com arruaças. Uma pena!

E-mail: Paulão