voltar - Crônicas do Paulão


Imagem - Folha de São Paulo

CRISE NO PLANET HEMP

A decisão do governo conservador da Holanda de proibir os coffee-shops de vender maconha para estrangeiros (holandeses podem. Só apresentar identificação) em três províncias do país, Limburg, North-Brabant e Zeeland (em Amsterdã, a medida vai valer a partir de 2013), representa um duro golpe aos “fumetas” de plantão e aos donos dos estabelecimentos que ganhavam um bom dinheiro com o chamado turismo da maconha, que vinha acompanhado, além da liberação de compra e uso da “ervinha”, da prostituição, sobretudo nas vitrines do Red Ligth District, os prostíbulos hiperfamosos de Amsterdã. O plano parecia perfeito. Criar uma espécie de reduto da maconha, comércio livre de traficantes e sua inevitável violência parecia caminhar bem, mas esbarrou mais uma vez na condição humana. Estes locais tornaram-se nos fins de semana, palco para violência urbana e de desordens dos mais variados tipos. Soma-se tudo isso a um governo conservador...

Na verdade o mundo enfrenta o dilema das drogas. Reprimir ou liberar geral? As duas possibilidades parecem não chegar a lugar algum. A liberalização das drogas em certos locais mostrou-se problemática e ineficaz. Lembro-me, em meados dos anos 80, de uma experiência realizada em Zurique, capital da pacata Suíça. Uma praça da cidade foi liberada para o uso de drogas, sem repressão policial ou interferências da lei. O resultado foi desastroso. O local transformou-se num palco de demência e agonia, com pessoas alucinadas, ambiente promíscuo, coberto de fezes e urina e sob a ação de traficantes, que vendiam seu “produto” livremente. O resultado foi o fechamento da praça e o recrudescimento policial sobre o tráfico.

Todas as experiências liberalizantes resultam em fracassos. Há pessoas que se comportam bem diante dos efeitos de drogas ilícitas ou do álcool (tanto é verdade que muitos proprietários de coffee-shops dizem ter clientes usuários com 25 anos de consumo, sem uma única alteração). Porém, na média, a história é outra. Pesquisas comprovam o aumento dos casos de violência, prostituição e ação do tráfico. É a fauna humana exibindo seu pior lado.

O outro lado da moeda, a repressão, também tem resultados duvidosos. O exemplo mais recente foi a equivocada ação policial na chamada cracolândia, região central de São Paulo. Todos puderam acompanhar as cenas deprimentes de viciados expulsos de seus nichos, vagando feitos zumbis e ocupando outros pontos da capital paulista. É de doer. E ainda temos que aguentar o cinismo dos governantes que em vão, tentam tapar o Sol com a peneira. Como podem governador e prefeito dormirem em paz, quando sabem que um bairro inteiro da maior cidade do Brasil usa crack? Foi uma ação de moldes higienistas, que se repetem em nossa triste história.

Outro exemplo: a ocupação dos morros que supostamente eram dominados pelo tráfico de drogas no Rio de Janeiro. Duvido muito da eficácia das UPPS, as chamadas áreas pacificadas. Sai o traficante e entra a polícia. Não é trocar seis por meia dúzia? Quantos policiais não estão envolvidos com drogas no Rio de Janeiro? Depois algumas ONGs (tenho horror disso), instalam seus programinhas sociais: uma trupe de teatro, uma escolinha de samba ou de futebol. Recebem elogios de gringos de rosto vermelho e ficam todos felizes. E tome mais um “batifufo no caterefofo”, que serve apenas para maquiar a dura realidade de quem mora nessas comunidades.

Você pode estar perguntando: o problema tem solução? Tem, é claro! É preciso olhar a questão das drogas e do tráfico sob o ponto de vista social, e não apenas moral. Primeiro: Por que as pessoas se drogam? Por que as pessoas bebem ou fumam? Deve existir milhares de motivos que levam as pessoas a fazerem uso de drogas ou álcool. Elas sabem que o vício lhes causa mal. Mesmo assim continuam usando. Por prazer? Por necessidade? Decepção? Frustração? Nostalgia? A lista é longa. Nem psicólogos renomados chegam a conclusões satisfatórias. Além do mais, existem viciados dos mais variados tipos: por comida, trabalho, mulheres, homens, carros de luxo, vinhos sofisticados e talvez o maior de todos, o dinheiro. Vício: você ainda vai ter um. É uma lista infindável. Na questão específica das drogas tenho uma certeza: descer o porrete não funciona. Liberar geral mostrou-se frustrante.

Segundo: tem a questão do tráfico. É um comércio como outro qualquer. A produção de drogas atende as necessidades de mercado. Se existe quem produz cocaína, é porque tem alguém cheira, não é mesmo? Vide o que acontece nos Estados Unidos. Os ianques gastam uma fortuna para combater a produção do “pozinho branco” na Colômbia ou Bolívia. Mas na América existem 15 milhões de viciados. Os traficantes estão atendendo a demanda de consumo. Isso sem falar do que rola na high society, no jet-set tupiniquim. Aquelas festas de gente “descolada”, tudo regado à cocaína. Além disso, o tráfico gera emprego e assistencialismo social. E corrompe, pois com o dinheiro das drogas compra-se a polícia, os governantes, os juízes. O comércio de armamentos ganha uma fábula. Sabemos que nem todos estão à venda, mas a corrupção ligada ao comércio de drogas é avassaladora.

Talvez seja melhor trabalhar a cabeça das pessoas, fazer campanhas educativas, conscientização dos perigos do uso contínuo de drogas legais e ilegais. Minar o consumo pode ser uma saída. Infelizmente isso depende de educação e opção pessoal. Não é um caminho fácil. Drogas existem desde os tempos mais remotos. Só mudam de nome e variação da técnica de preparo. Fazer uso delas é fácil. Entrar no mundo do vício, também. Difícil é sair ileso.

E-mail: Paulão