Crônicas
Voltar para página do Maciel
Voltar para Página de Idéias

Meus passeios de bicicleta são fonte de inspiração para as más crônicas que escrevo. Mas não posso me furtar a eles. São meu oxigênio. Não respiro direito, sem eles. Sem eles, não vejo a vida, que está passando muito rápida. Então, nas crônicas, posso revê-la mais lentamente. Além disso, vou continuando em forma, ao menos fisicamente. Estranho binômio: "SAÚDE-CRÔNICA". Depois, arremedo de atleta será arremedo de atleta até o final de seus dias. Saúde crônica. É o meu caso. Quero morrer saudável, pros meus amigos me verem no caixão bacanão. E pra atemorizar os meus inimigos, que não tenho. Muitos.
Mas vamos ao que interessa.

You are the sunshine, babe/Whenever you smile/But I call you stormy today
O dia estava bem bonito, o solzão iluminando a minha querida terra, as gentes apressadas vivendo seu cotidiano, essas coisas que encontramos amiúde, por aí. Santana, em "Stormy". O sol é cúmplice disso. Sun_tana. Bronzeado de sol. Infame.

How can you mend a broken man?
Então encontrei, defronte à grande construção — inacabada — do Hospital da Mulher, uma moça. De longe, percebi que gesticulava freneticamente, como se o fizesse para alguém dentro da construção. Ao chegar mais perto, percebi que ela esta imersa no êxtase que acompanha as rezas. Com um buquê de florezinhas do campo numa das mãos, cantava loas, em direção ao esqueleto do prédio, que pareceu para mim o retrato do Brasil: enorme, imenso e mal ajambrado.
Respeitei-lhe o momento de comunhão com o imponderável. Uma louca. Aquela construção jamais será concluída. Nem com reza braba. E quem poderá curar sua loucura? E quem poderá curar a minha, que sempre achou que aquilo daria um excelente Centro Cultural?
I can still feel de breeze/rustles through the trees
O vento... ah!!! o vento de agosto... batendo em meu peito, enchendo-me de prazer por estar vivo...

Where is the love? Where is the love?you said was mine all mine, till the end of time was it just a lie
Mais à frente, um casal de adolescentes brigava essas brigazinhas de apaixonados. A menina chorava, inconsolável. Ele, com ares de dono da situação (!), afagava-a, mas ao mesmo tempo, apontava-lhe, com o dedo, alguma coisa que tinha feito de errado. Acho que dão um tempero nestes namoros os choros comuns, de esquina, com cadernos e estojos na mão. Que coisa! eu já tive um destes... e você?????não????? Pena.

Sometimes late/When things are real/And the people share the gift of gab/Between themselves
Passeei pelo asfalto das ruas daquele bairro imenso. Cohab. Uma Mococa dentro dela mesma, autofágica, inchada. Segundo os urbanistas, um quisto social, um bolsão de miséria. Miséria, o cacete. Vida, isso sim. Tanta gente boa, tanta gente ruim. Na Espanha, na Rússia, Alemanha, Portugal, é a mesma coisa. Gente compartilhando suas vidas. A gente vai levando. Só assim, mesmo.
E o asfalto guardava em seus poros o óleo vazado dos carros velhos, as podriqueiras das casas caídas, dos caminhões de lixo, o vermelho do sangue de um pobre coitado que tombou ante as facadas de seu desafeto ainda ontem mesmo, as bostas das dezenas dos magros cães vadios, as dezenas de magros cães vadios modorrando sob o cálido sol. Crianças esquálidas soltando pipa, desempregados desesperançados na calçada, mães carregando seus bebês e fuxicando, em conversas de comadre; sabe o que é atravessar uma rua cheia de vida? É mais ou menos encontrar não com as vidas mas, antes, com seu rastro, suas marcas, sua passagem pelo mundo. E que marcas terríveis, encontrei...

And you know what love can do/I'm a bluebird, I'm a bluebird, I'm a bluebird
O sol, lá de cima, furava meus olhos, iluminava a cena, a minha terra, os meus personagens. Gravava na alma aquele momento. Lá de longe, o horizonte montanhoso que parece dividir São Paulo das Minas Gerais, a serra que acompanhou durante toda a minha vida os meus passeios, dos quais guardo tantas e tão boas recordações visuais e emotivas, convidava-me novamente:
"— You're a bluebird."

Well, she looks at you so coolly/And her eyes shine like the moon in the sea/She comes in incense and patchouli/So you take her, to find what's waiting inside/The year of the cat
Ano de eleições é isso. Ano dos gatos que saem à espreita. Caminhão de som esparramando os fiapos literários, escritos às pressas, contidos nas paródias das músicas de ocasião, enaltecendo o que o candidato fez ou fará. Meninas na carroceria, em minúsculos shorts, agitando as bandeiras do partido, todas gostosuras e sorrisos. As pessoas correm para o meio da rua para saber quem é a figura apresentada. Santinhos jogados, bexigas, palavras de ordem. Tem um muro pichado assim: "Palhaçada por palhaçada, vote no Palhaço Fulano de Tal". A profissão do candidato é palhaço, mesmo!!!! Dos bons. A criançada adora ele.
E tome casas populares, remendos no asfalto ruim, igrejas chamando pelos fiéis, feirinha de legumes. Anúncios em sulfite pregado na parede:
"Chêro verde = 0.70 o masso". Assim mesmo. Ipsis literis.
E bares cheios de candidatos, de conversas políticas, de sorrisos, de "ois" e acenos aos passantes. Coligações de porta de boteco.

Somewhere, over the rainbow, way up high/There's a land that I heard of once in a lullaby/Somewhere, over the rainbow, skies are blue
Ao longe, a serra, contra o céu azul. Irredutível. Limite extremo dos estados, convidando-me a sonhar. Limite dos meus sonhos.
Depois de quase uma hora de pedaladas, voltei àquele lugar onde achara a moça da reza. Encontrei-a bem perto dali, procurando pelo seu arco-íris, apanhando umas flores roxas numa árvore. Tentava dá-las a um cachorro. Queira porque queria que ele as comesse. O cão afastou-se dela.
"— Estou com fome, mas flor..." deve te pensado.
Vi-me espião da vida alheia — que redundância... espião só pode espiar a vida alheia ou, então, o cara é um paranóico e se espia para depois fazer futrica com o alter-ego — e passei a seguir a moça. Bem arrumadinha. Uma bolsa branca a tiracolo e as flores, as benditas flores. Chegou em sua casa, depositou as flores benditas na soleira do portão e entrou sem elas. Suas esperanças estavam todas nas flores. Mais ou menos o que Dante escreveu nos portões do seu Inferno: "Deixai todas as vossas esperanças, ó vós que entrais".

I see trees of green, red roses too I see them bloom for me and you
Voltei com uma vontade danada de atravessar aquela serra que me acompanhava, lá longe. O limite dos estados. Quis atravessar metaforicamente a serra e ver-me no outro lado, no limite oposto. Os estados de lucidez e loucura. São Paulo é uma ou a outra? E Minas? Será que os mineiros são mesmo, solidários só no câncer? Então, Minas é a loucura.

What a diff'rence a day made/Twenty-four little hours
A moça doida de pedra desapareceu para dentro de seu limite, sua fortaleza segura, sólida. E eu, com a cara de pau ainda de ser idealista — Hi, Elenice from Muzambinho and Sicrana from Brasília, outra idealista, a mesma, uma e outra — e acreditar que o ser humano pode melhorar, pode ser remendado, pode voltar a ser feliz, a ter fé, a confiar no outro, continuei na minha trilha, vendo que minha cidade nada mais é que o espelho do mundo. Contido numa fita cassete.

And I think to myself what a wonderful world/Yes I think to myself what a wonderful world

A todos que acreditam,ainda, no homem